Cid Benjamin e Rubens Paiva

Por CID BENJAMIN

Está cotado para concorrer ao Oscar o filme “Ainda estou aqui”, de Walter Salles, que ainda não vi, mas que, com certeza, verei. Ele conta a história da prisão, tortura e morte do ex-deputado Rubens Paiva, em janeiro de 1971.

Segundo afirmou posteriormente o tenente-médico Amilcar Lobo — lotado no quartel da Polícia do Exército da Tijuca, o principal centro de torturas do Rio — Paiva morreu por hemorragia interna, depois de espancado com um cassetete de madeira maciça.

Quando li o que disse Lobo a esse respeito, lembrei que poderia ter tido o mesmo destino de Rubens Paiva. Explico. Fui preso em 21 de abril de 1970, mais ou menos um ano antes dele. Em meio às várias sessões de tortura a que estava sendo submetido, lá pelas tantas o tenente Armando Avólio Filho, me algemou à base do pau-de-arara, rente ao chão, e ordenou que lhe trouxessem um cassetete de madeira.

Mal começou a me espancar com ele, alguém que não identifiquei advertiu-lhe que aquele procedimento estava proibido, porque causaria hemorragia interna. E o torturador que mata o preso inadvertidamente demonstra incompetência. Avólio praguejou, mas cumpriu a ordem. Pediu então vassouras, que foi quebrando nas minhas costas, enquanto nos xingávamos mutuamente de “filho de puta”.

Naquele momento, ser espancado com vassouras não deixava de ser uma vantagem. Era muito pior levar choques elétricos (que eram fortes e prolongados) com os fios amarrados em partes do corpo, ou ser afogado.

Com certeza, ao ver o filme mais uma vez vou lembrar que a minha vida foi salva pelo torturador que impediu Avólio de me espancar com cassetetes de madeira maciça.

São as voltas que o mundo dá.

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