Nem Trump conseguiu rir

Da FOLHA
Por MARILIZ PEREIRA JORGE
Comediante conseguiu a façanha de constranger republicanos presentes e revoltar os ausentes
Melhor do que censurar um comediante considerado politicamente incorreto, é deixar que ele prove o quanto é engraçado apesar do teor de suas piadas. Ricky Gervais, por exemplo, consegue arrancar risadas com um repertório que incomoda a patrulha mais sensível, enquanto mostra porque o limite do humor deveria ser o riso e não a censura.
O profissional talentoso constrói o caminho da piada de uma forma que ela atinja seu ápice por mais desconfortável que seja, por mais minorias atingidas. Não é o caso de Tony Hinchcliffe. Chamado para aquecer a plateia no comício de Donald Trump, no Madison Square Garden, conseguiu a façanha de constranger os republicanos presentes e revoltar os ausentes. Não pode ser preconceituoso, por não ter graça.
Em sua fala, Hinchcliffe disse que a eleição de Trump é garantia da volta da liberdade de expressão, ainda que tenha usado dessa prerrogativa para mostrar toda sua ousadia ao tentar ridicularizar os eleitores democratas, sem resultado. Num momento da sua participação de pouco mais de dez minutos, ele reclama da apatia da audiência.
Demorou quase quatro minutos para que o comediante conseguisse arrancar alguma reação da plateia ao dizer que os apoiadores de Kamala Harris, como Beyoncé e Leonardo DiCaprio, parecem ter saído da lista das festas de P. Diddy, acusado de tráfico sexual, entre outras coisas. Seria engraçado, se não houvesse registros da relação de Trump com o rapper e se Hinchcliffe tivesse talento. Na tentativa de atingir o rapper porto-riquenho Bad Bunny, que declarou voto em Kamala, Hinchcliffe diz que Porto Rico é uma ilha de lixo. Sobrou para o jogador Travis Kelce, namorado de Taylor Swift, que seria o próximo O.J. Simpson. Era para rir da referência a um acusado de duplo homicídio?
Lá pelas tantas, o comediante sugere que a guerra entre “Israel e os palestinos” deveria ser resolvida com o jogo “pedra, tesoura ou papel”, mas que os palestinos escolheriam pedra todas as vezes. Ele só conseguiu agitar o público ao creditar a Deus o fato de Trump ter sobrevivido ao atentado. “Nós votaremos na semana que vem, Deus votou há três meses.” Dessa eu quase ri.
