O mapa da LGBTfobia em São Paulo

Da FOLHA

Por THIAGO AMPARO

Ano após ano, relembramos que o Brasil é campeão em vilipendiar pessoas por serem quem são

970%: este foi o aumento da violência contra pessoas LGBTQIA+ na cidade de São Paulo entre 2015 e 2023, segundo os registros dos serviços de saúde. Trata-se de uma fonte mais confiável do que os boletins de ocorrência, embora estes se complementem. A criminalização da LGBTfobia foi reconhecida pelo STF apenas em 2019, e as polícias ainda engatinham no treinamento de seus agentes, apesar da construção de protocolos policiais.

Considerado o mesmo período de 2015 a 2023, houve um salto de 1.424% dos BOs envolvendo LGBTfobia, totalizando 3.868 vítimas. O estudo foi conduzido pelo Instituto Pólis e publicado nesta semana do Dia Internacional Combate à LGBTfobia (17 de maio) e do Dia do Orgulho de ser Trans e Travesti (15).

O estudo paulistano permite avançar em políticas públicas de prevenção e enfrentamento, porque o relatório elabora um mapa da LGBTfobia ao identificar padrões territoriais diferentes do fenômeno. Os tipos de violência contra pessoas LGBTQIA+ são diversos entre si. Racismo e LGBTfobia se retroalimentam: homens, jovens e negros são maioria entre as vítimas de violência física; e 79% das vítimas de LGBTfobia envolvendo policiais são pessoas negras.

Redes de apoio a mulheres fora da região central são fundamentais: mulheres negras e jovens são mais vítimas de violência sexual dentro de casa (59%) e, em geral, a violência contra mulheres LGBTQIA+ ocorre em distritos afastados e de menor renda. Policiamento preventivo e unidades multidisciplinares são igualmente essenciais em bairros com mais locais de sociabilidade de pessoas LGBTQIA+: nestes bairros há, também, mais casos de violência perpetrada nas vias públicas.

Ano após ano, relembramos que o Brasil é campeão em vilipendiar pessoas por serem quem são: uma pessoa LGBTQIA+ morre violentamente a cada 38 horas. Já passou do momento de honrar o nosso luto desenhando soluções transformadoras para que as nossas datas não sejam, repetidamente, repletas de obituários que poderiam não ter existido.

Facebook Comments

Posts Similares

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.