O Golpe de Estado já foi dado

De O GLOBO

Por LEO AVERSA

Enquanto chafurdamos na polarização, o país vai sendo tomado por paramilitares, cuja única ideologia é o lucro e a eliminação dos adversários

Pela milésima vez presencio uma discussão Lula x Bolsonaro. Lula isso! Bolsonaro aquilo! Admiro o entusiasmo, eles não cansam. Quando começa a parte do 8 de Janeiro, a treta esquenta ainda mais: “Foi tentativa de golpe!”, “Não, foi só uma manifestação”. É aí que me cai a ficha.

O golpe já aconteceu.

Mais da metade do Rio de Janeiro (segundo estudo da UFF/Fogo Cruzado, de setembro/22) está sob controle de grupos armados. Extorquem o comércio, vendem proteção, decidem quem mora onde, que obra será feita, sobem prédios, elegem representantes. Mandam em tudo. Seus domínios nunca encolhem, só se expandem. Pelo Brasil afora a situação vai se espalhando. Não quero desiludir ninguém, mas o poder está mudando de mãos na nossa cara e não é pelo voto. À força mesmo, sob a mira de pistolas ou fuzil.

E não é essa a definição de golpe de Estado?

Para quem mora em grande parte do Rio, o governo é outro. Prefeito, governador, presidente, tudo miragem. Manda o bandido da vez, e, claro, obedece quem tem juízo. As políticas públicas, as decisões do STF, os projetos do governo, o Congresso Nacional, nada faz sentido para os que precisam dar satisfações diárias para delinquentes. Onde estão a Democracia e o Estado para quem vive sob ordens do crime?

Não é uma tragédia que surgiu do nada. A segurança pública tem sido deixada de lado pelos governos há décadas. Consideram que é uma questão menor, frescura de burgueses privilegiados ou de proletários que não compreendem a luta de classes. A direita acha que vai resolver a encrenca colocando uma arma na mão de cada cidadão — o faroeste caboclo — ou então matando inocentes em comunidades carentes, seguindo a “política” de quem viu muito “Rambo” e pouco livro. Já a esquerda não consegue sequer ver o problema, quanto mais encontrar a solução. Alguns até sentem um perfume de justiça social nos roubos e assaltos, como se a vítima fosse sempre um Eike Batista da vida e não o cara que ganha um salário e que perde no ônibus o celular que está pagando em 36 vezes.

Enquanto chafurdamos na polarização, nas tretas ideológicas, o país vai sendo tomado por paramilitares, cuja única ideologia é o lucro a qualquer preço e a eliminação — a bala — dos adversários. Estamos tão preocupados em colocar o dedo na cara dos adversários e lacrar nas redes que não notamos o que está ocorrendo à nossa volta. Sim, leitor, trata-se de um golpe de Estado. Em câmera lenta, na surdina, mas um golpe de Estado. Não demos a devida importância ao aumento de bairros controlados pela milícia, aos políticos que são eleitos pelo crime — e trabalham de acordo —, aos notórios bandidos soltos com a colaboração da Justiça. Pouco a pouco, o sistema foi sendo contaminado — e dominado — sem nenhuma reação maior da sociedade.

O golpe que foi ameaçado pela turba descerebrada invadindo Brasília não deu certo, mas outro vem acontecendo. Se você não pode circular a qualquer hora pelo seu bairro ou sua cidade, se o comércio à sua volta tem que pagar “taxas de segurança”, se grupos armados controlam os serviços públicos, se tem políticos defendendo criminosos e a Justiça os protege, o governo já perdeu o controle da situação.

O temido golpe de Estado foi dado, só a gente não viu.

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