A triste repercussão da imprensa gaúcha à época do estupro coletivo de Berna

Após participarem do estupro coletivo de uma garota de apenas 13 anos na Suíça, Cuca, Henrique, Fernando e Eduardo (Chico) retornaram ao Rio Grande do Sul aclamados como heróis.
Pelo público e pela mídia.
Nem mesmo a condenação, posterior, serviu para mudar a opinião da maioria.
Eram tempos sombrios.
Décadas após, nenhum deles pediu desculpas às vítimas e há quem ainda encontre argumentos para minimizar o horror.
Cada vez menos pessoas, é verdade, mas ainda assim muita gente.

Confira abaixo a repercussão da imprensa gaúcha à época dos fatos:
“Os jogadores do Grêmio não assimilaram a mudança do fuso horário. Levaram um choque de costumes… Agora é só torcer – no que acredito – que a justiça suíça faça justiça. Isto é, que ela encare o fato como realmente foi uma travessura irresponsável e de total imprevidência dos seus autores quanto a sua ilicitude e consequências”.
– Paulo Santana, Zero Hora, 08/08/87.
Não faltou sequer um teste de escolha múltipla: “Pense e responda: a) Uma garota que esta sendo estuprada não grita? b) se grita ninguém ouve, mesmo estando num hotel? c)havendo violência, a vitima não reage a ponto de ferir-se?”
– Wianey Carlet, Correio do Povo, 08/87.
E o que dizer quando o estupro passa a ser um “deslize sexual” menos grave que o justo?
“alguns pecaram mais que outros, se é que houve pecado… O fato ocorrido no hotel de Berna é normal em quase todas as excursões, fora ou dentro do país… Se os jogadores tivessem furtado praticado desordem séria ou outra atitude demasiadamente desabonatória, eu aconselharia sua eliminação do clube. Mas um deslize de ordem sexual em que, visivelmente, colaborou para sua consumação uma conduta, no mínimo, quase conivente da chamada vitima, não deve servir de amparo a uma decisão drástica”.
-Paulo Santana, Zero Hora, 29/09/87
Violência? Claro que não. Ficou mais do que claro, pelo menos para mim, que não houve violência no ap.204 do hotel metrópole. Pode-se questionar, isto sim, o bom gosto dos envolvidos… Mas corres e sabores não se discute, resta dar as boas vindas aos nossos doces devassos”.
-Wianey Carlet, Correio do Povo, 29/08/87
Segundo a logica machista, culpados são os que não estupram mulheres, as “bichas”: “Na semana que vem chega o Internacional. Parece que estou vendo a cena no aeroporto Salgado Filho: Terezinha Morango (torcedora-símbolo) e a torcida Fico em coro para os jogadores colorados: “bicha” “bicha”, “bicha”.
-Paulo Santana, ZH, 20/08/87
As fotos publicadas de Sandra foram mais um estimulo á imaginação: “…quem achar que a Sandrinha é bagulho que atire a primeira pedra’.
-Lauro Quadros, ZH, 18/08/87
“…a moça Sandra, que seduziu ou foi seduzida pelos jogadores do Grêmio…E que moça bonita a Sandra. Uma mocetona. Nem parece que tem só 13 anos. Uma mulher com aquela beleza sempre causa complicação. Até mesmo para quem casa com ela”
-Lauro Quadros, ZH,31/08/87.
“…uma foto vale mais que mil palavras, basta comparar a que mostra a esfuziante Sandrinha, na festa dos Young Boys, com a que revela a cara abatida dos jogadores saindo da prisão, para confirmar que, lei a parte, sofrimento moral só os quatro jogadores tiveram”.
-Paulo Santana, ZH, 18/08/87.
Como se tornar Amélia ou as receitas dos cronistas gaúchos de Cuca: “Esta é a hora de Rejane. Se, consideradas as circunstancias, ela revelar sensibilidade e compreensão, é porque se trata de uma Grande Mulher. Já imaginaram o Cuca conseguir o que conseguiu, telefonar, e levar outra paulada na cabeça? Não, isto não vai acontecer.’
-Lauro Quadros, ZH, 28/08/87.
“O juiz suíço é o mais cruel de todos que já vi. Equipara-se a um ditador sanguinário. Pois além de manter Cuca incomunicável, a única brecha que abre para o presidiário é justamente a da tortura de explicar para sua esposa o que houve naquele apartamento de hotel… teremos que mandar para lá o Jair Kriscke dos Direitos Humanos… O Cuca tinha uma única vantagem em estar incomunicável e atirado no catre da cela: não ter que explicar a mulher o acontecido com a garota”.
-Paulo Santana, ZH, 23/08/87
