O previsível depoimento de Neymar

No julgamento que pode condená-lo à prisão por corrupção, Neymar, de maneira previsível, jogou a culpa sobre possíveis ilegalidades cometidas, exclusivamente, no colo de seu pai:

“Eu assino o (documento) que ele manda”

“Sempre foi meu pai que cuidou de tudo, sempre foi responsável por isso”

Neymar disse ainda não se lembrar se participou de um dos momentos mais importantes de sua vida, que foi a negociação do Santos para o Barcelona.

O pai, por óbvio, corroborou:

“Neymar nunca participa das negociações”

Se é bem provável que o pai manobre 90% das tratativas de cada negócio envolvendo o nome de seu filho, é difícil acreditar que, antes da assinatura, até pelo convívio familiar, o atleta não seja informado, no mínimo, sobre um resumo do acordo que assinará.

Imaginemos uma conversa entre os dois, baseada nas acusações formalizadas pela DIS:

“Filho, papai ajeitou para que os gringos depositem os milhões na conta da empresa. Mas você não pode falar nada pra ninguém. Depois, aos poucos, a gente vai utilizando”

Outra, também hipotética, pós-casa derrubada:

“Caiu a casa… joga tudo nas minhas costas… se faz de bobo… ser imbecil não dá cadeia”

Qual das conversas parece mais verdadeira ao leitor? A que, comprovadamente, foi falada, em Tribunal, ou a que imaginamos poder ter ocorrido?

No jogo sujo dos bastidores da bola tudo é possível.

Delci Sonda, em entrevista ao New York Times, disse que, logo após comprar o percentual de Neymar, era convidado, frequentemente, para comer pizza na casa do jogador.

Com o tempo, passou a encontrar por lá o agente Pini Zahavi, que mantém escritório, em Londres, com Kia Joorabchian, além de Wagner Ribeiro, que assinava como agente principal, embora amancebado com todos eles.

Sonda percebeu o início do golpe.

Será que Neymar não escutava nada?

É conveniente para o jogador, ainda que de baixo nível intelectual, se deixar com um idiota em momentos de crise.

Neymar poderia não ter capacidade para alinhavar acordos com seus fornecedores, razão pela qual se socorria, e avalizava, a atuação do pai, mas é esperto suficiente para entender, ao final, as razões pelas quais cada real, dólar ou euro ingressa em seu bolso.

O encontro com Bolsonaro, e posterior apoio explícito à candidatura do Genocida, ao mesmo tempo em que seus problemas fiscais eram amenizados, não são comportamentos de quem ‘apenas’ assina o que é mandado pelo pai.

“Um manda, outro obedece’, tornou-se clássico, pela boca do deplorável General Pazuello, como válvula de escape para quem precisa se isentar de responsabilidades pelos malfeitos cometidos.

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