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Blog do Paulinho

Eclesiastes com cream cheese

Da FOLHA

Por ANTONIO PRATA

O Brasil é um país tão doido que os conservadores são os agentes da destruição

A gente vai ficando velho, vai ficando conservador. Talvez seja a ilusão besta de que, revogando o encontro do sushi com o cream cheese, voltaríamos lá pra 1992. Ou que a volta do trema em “lingüiça” e do acento agudo em “idéia” fosse nos catapultar a 2009. (Época em que a barriga não tremia, as ideias eram agudas e lhes pouparei, por conta do meu conservadorismo, de qualquer piadota envolvendo o fato de terem tirado duas bolas da linguiça).

Lembrei agora do começo do Aleph, de Jorge Luis Borges. “Na candente manhã de fevereiro em que Beatriz Viterbo morreu, depois de uma imperiosa agonia que não cedeu um só instante nem ao sentimentalismo nem ao medo, observei que os painéis de ferro da praça Constitución tinham renovado não sei que anúncio de cigarros; o fato me desgostou, pois compreendi que o incessante e vasto universo já se afastava dela e que essa mudança era a primeira de uma série infinita. Mudará o universo, mas eu não, pensei com melancólica vaidade”.

A ideia de que desejar evitar a passagem do tempo seja uma vaidade também aparece no Eclesiastes, na Bíblia. “Vaidade de vaidades! —diz o pregador, vaidade de vaidades! É tudo vaidade. Que vantagem tem o homem de todo o seu trabalho, que ele faz debaixo do sol? Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece. E nasce o sol, e põe-se o sol, e volta ao seu lugar, de onde nasceu.” Vaidade. Verdade. E daí? “Mudará o universo, mas eu não”. Tamo junto, Jorge Luis.

Outro dia fui ao Ponto Chic, no Largo do Paissandu. Pedi o clássico bauru. A primeira mordida me deixou com os olhos marejados. Na hora, não entendi o porquê da madelêinica reação. Só depois, lendo no jogo americano a história do sanduíche, inventado em 1937 naquele mesmo restaurante de 1922, compreendi.

O país desmilinguindo, o Congresso aprovando compra de votos na cara dura, chacina atrás de chacina perpetrada pela polícia e apoiada por um terço da população “de bem”, a mudança do outdoor de “não sei que anúncio de cigarros” esfregando na nossa cara a passagem dolorosa do tempo, “uma geração vai, uma geração vem”, mas o bauru continua lá. O lúbrico queijo derretido espraiando-se pelas bordas do pão francês foi o mais próximo que eu cheguei, na última década, de alguma solidez institucional.

O Brasil é um país tão doido que os “conservadores”, por aqui, não conservam: são os agentes da destruição. As hienas da direita fazem o lobby das construtoras, trucidam planos diretores e demolem continuamente a cidade. Instrumentalizam o Condephaat e o Iphan (órgãos cuja finalidade é conservar) para botar abaixo a nossa história, queimam a Amazônia, o Pantanal, o Cerrado, apoiam uma política de armas e uma polícia que nos impedem de manter o bem mais precioso que existe: a vida.

Viver a realidade brasileira de 2013 para cá foi como um ataque constante de pânico. Vertigem. Frio na barriga. Mão suada. Taquicardia. A sensação (não de todo equivocada) de que vamos morrer a qualquer momento. Aí eu penso que esse bauru já foi comido por Mario e Oswald de Andrade, sobreviveu a duas ditaduras, ao Plano Cruzado, Plano Verão, Plano Collor e até à atual completa falta de plano: dá um morninho no coração.

“Que vantagem tem o homem de todo o seu trabalho, que ele faz debaixo do sol?”. No fim das contas, meu Javé, nenhuma. Ao contrário do ditado: vão-se os dedos, ficam os anéis. “Uma geração vai, e outra geração vem; mas” o bauru do Ponto Chic “para sempre permanece. E nasce o sol, e põe-se o sol, e volta ao seu lugar, de onde nasceu”.

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