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Blog do Paulinho

Denunciar assédio ainda é privilégio para poucas

Da FOLHA

Por MARILIZ PEREIRA JORGE

O jornalismo tem sido um aliado na apuração e nas denúncias, mas estamos longe de uma mudança verdadeira

Com tantas denuncias de assédio que acabaram com carreiras ou colocaram os protagonistas delas num hiato infinito, cria-se a falsa impressão de que o mundo está virando uma página e que esse tipo de comportamento que mais afeta mulheres não será mais tolerado.

Qualquer pessoa minimamente informada e com um pouquinho de juízo pensará duas vezes em investir sexualmente em colegas, conhecidos e mesmo desconhecidos se não tiver um claro consentimento, certo? Errado.

As mulheres descobriram por meio de campanhas na internet que tem um poder que jamais tiveram em outro momento da história. As palavras mobilizam, encontram conforto e empatia e promovem mudanças. O jornalismo tem sido um aliado na apuração e nas denúncias. Mas estamos longe de uma mudança verdadeira.

episódio que envolve o agora ex-presidente da Caixa, Pedro Guimarães, e pelo menos meia dúzia de funcionárias, vítimas do predador, mostra que mesmo quem tem informação, acesso a advogados, à mídia, ainda demora a se sentir segura para botar a boca no trombone.

Os casos que envolvem o banco estatal aconteciam desde 2019, com a cumplicidade de outros executivos, que sabiam sobre as investidas criminosas do presidente. Por que o setor responsável por esse tipo de assunto foi negligente com essas mulheres? Porque sabemos que as empresas ainda não sabem como conduzir as denúncias e preferem adotar medidas paliativas: transferências, promoções, tratamento psicológico. Não é incrível que o mundo coorporativo continue tóxico se os assediadores continuam ganhando bônus do final do ano?

Não quero imaginar o ambiente de terror que as funcionárias da Caixa tiveram que enfrentar e engolir até que conseguiram se manifestar e ter apoio. Outras renunciaram a cargos, mudaram de cidade ou de país, tudo para manter uma espécie de pacto de silêncio sobre a conduta de um homem poderoso, covarde e antiético.

Vemos uma luzinha bem fraquinha lá dentro de algum arquivo numa sala de Recursos Humanos. O número de denúncias aumentou, o que não significa que vivíamos à sombra da subnotificação, mas que nem #metoo, nem ameaça de cancelamento fazem com que homens controlem a mão e os pintos longe de suas colegas de trabalho.

Hoje mesmo li uma reportagem que dá conta de que a média de denúncias no governo federal é de um caso por dia, em 2022, segundo a Controladoria-Geral da União (CGU), que mostra o que eu disse, os assediadores estão incontroláveis.

Há outra questão não menos importante. Denunciar assédio me parece ainda privilégio de uma minoria munida de conhecimento, que perdeu o medo, que encontrou empatia e amparo. Que não sente mais medo de ser julgada, hostilizada, de perder o emprego ou a reputação. É bonito ver a mobilização, mas ela nos dá uma percepção muito errada de que a mudança chegou para todos. Não chegou.

Eu sempre penso em mulheres em condições socioeconômicas mais frágeis, em posições que não exigem formação escolar sólida. Ou seja, o grosso da massa trabalhadora do país. Duvido que a realidade de assédio e violência tenha mudado, nem em relação as notificações. Mulheres que não têm acesso a essa rede de proteção invisível que já pode ser acessada quando uma de nós pede socorro, mas que está longe do alcance das que não sabem como usar as ferramentas disponíveis. Ou que têm medo de serem expostas, desacreditadas, difamadas e ficarem sem trabalho.

É urgente que as empresas enfrentem o problema e abracem o compromisso de fazer campanhas de conscientização, deixar visíveis mensagens sobre a importância de um ambiente de trabalho saudável, reforçar os canais de denúncia, capacitar os profissionais para que conduzam os casos da forma que se faz necessário. Não adianta tentar resolver o problema na cúpula e esquecer da violência que acontece na base.

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