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Blog do Paulinho

Um texto ficcional: Pesadelo na CBF

Da FOLHA

Por JUCA KFOURI

Atenção: qualquer semelhança não é mera coincidência

Cansado após décadas de escândalos, corrupção sem fim, incapacidade de organizar calendário minimamente decente, um candidato surgiu do baixo clero do futebol brasileiro para assumir a CBF.

Especialista em palavras cruzadas, tosco e de folha corrida mais para prontuário que para biografia, JM, suas iniciais, passou a percorrer o país com promessas retrógradas, ao se apresentar como antissistema e blindado em relação aos corruptos: “Comigo não terá lugar presidente de federação, porque é tudo ladrão”, alardeava com gestos que imitavam apito moralizador.

Montou sua chapa com militar de pijama para reforçar imagem disciplinadora e tratou de ganhar o apoio do presidente do clube mais popular do país, desses empreendedores tipicamente brasileiros, pródigo com dinheiro da viúva.

Em meio à campanha, em cidade do interior mineiro, acabou atingido por garrafada desferida por um torcedor enlouquecido, conhecido de seus filhos, com quem frequentava escolas de tiro.

Hospitalizado, motivo para deixar de comparecer aos debates com os demais pretendentes, ganhou a simpatia da torcida ignorante, gananciosa, voltada para si mesma, sempre em busca de um igual e viciada em autoengano.

E, ganhou, também, a eleição, para surpresa e preocupação do mundo, que é uma bola.

Logo pôs em prática suas ideias, coisa que também ninguém acreditava que faria, atribuídas às táticas de campanha, por mais que JM tivesse, por exemplo, manifestado profunda admiração por apitador que, em vez de mostrar cartão vermelho, tirava sangue dos jogadores.

Seu primeiro ato foi o de proibir que o gramado do estádio Mané Garrincha, na capital federal, fosse reformado.

“Coisa de maricas isso de querer jogar em tapetes verdes. Fui atleta, e torcer o tornozelo em buracos fortalece o caráter”, explicou. E arrematou: “Não vejo problema algum em jogar no terrão. Aliás, que bom seria se a Amazônia se transformasse em campos intermináveis, tá OK?”.

Outra providência que se apressou a tomar foi a de proibir a exibição de cartões vermelhos, associados à insidiosa campanha comunista.

Em seguida, proibiu o futebol feminino no Brasil, porque, afinal, defendia: “Mulher nasceu para parir, mesmo que o fruto seja o de uma fraquejada do homem“.

Para agradar o eleitorado, a cada dia vestia camisa diferente dos clubes mais conhecidos e, sem se tocar, passou a despertar a ira daqueles torcedores que, por serem de verdade, não toleram vira-casacas.

Percebeu, então, que começava a perder apoios e, sem vergonha, procurou os presidentes de federações a quem havia chamado de ladrões.

Para agradá-los, criou, no lugar do Brasileirão, o Rachadão!

Prometeu, e cumpriu, distribuir bolas pelo país afora. “A melhor vacina é aquela que você põe no bolso”, ensinava, entre uma folga e outra, outra folga e uma, quando não estava citando a Bíblia.

O Mané Garrincha, sem gramado, não demorou a ser privatizado por uma pechincha, mas as mulheres excluídas foram às ruas para dizer #elenão! Deu ruim.

Elas começaram a usar todas as armas de que dispunham, a começar por dizer não também a quaisquer homens que insistissem no erro de apoiar JM.

Apegado ao cargo como sanguessuga, antes que lhe metessem numa camisa de força, JM garantiu que só Deus o tiraria do posto. Ninguém ligou.

Ele, então, enfiou o apito no saco e desafinou.

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