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Blog do Paulinho

Intolerância fora do futebol contamina gramado e pega até pessoas pacíficas

Da FOLHA

Por JUCA KFOURI

Como sempre, enfim, estamos precisando dos conciliadores, dos que pacifiquem

​O argentino Jonathan Calleri perdeu a cabeça ao ver um jovem, com a camisa do Palmeiras e celular na mão, na saída do estádio alviverde depois de o São Paulo ter sido goleado na decisão do Paulistinha. E jogou o apetrecho do garoto, com um tapa sem cabimento, no chão.

Sim, estava de cabeça quente, embora seja profissional experiente, aos 28 anos.

Depois, dignamente, pediu desculpas e se prontificou a reparar o dano.

Passados alguns poucos dias e o ídolo mundial Cristiano Ronaldo, 37, com trabalhos sociais importantes, repetiu a atitude do são-paulino na saída de mais uma derrota do Manchester United.

Como Calleri, o português se desculpou.

Pior que ambos fez o técnico da Desportiva Ferroviária capixaba ao dar uma cabeçada na bandeirinha porque estava irritado com o árbitro, que não deu os acréscimos que ele queria.

Rafael Soriano, este o nome do poltrão, foi sumariamente demitido, deve ser banido do futebol e ainda ameaçou acionar na Justiça a vítima da agressão, que estaria simulando o que todo mundo viu.

Três episódios deploráveis em uma semana!

Em que medida o clima de hostilidade pelo mundo afora é responsável por tal estado de coisas?

A sociologia barata dirá que com lideranças bélicas em todos os continentes é inevitável a contaminação até em berçários.

Agredir crianças ou mulheres choca mais que as guerras?

Crianças, mulheres e homens negros convivem com tal estado de coisas desde sempre.

Roberto Rivellino, o melhor jogador da história do Corinthians, deu um pontapé na canela do bandeirinha, em 1974, em jogo no Parque São Jorge, contra o Botafogo de Ribeirão Preto.

Contra o mesmo Botinha, em 1977, Serginho Chulapa, pelo São Paulo, imitou Rivellino e pegou um ano de suspensão.

Neto iria mais longe: em 1991, cuspiu no rosto do apitador negro José Aparecido e não vive para se arrepender do ato infame —e, se arrependimento matasse, estaria morto há décadas.

Até Nilton Santos, a Enciclopédia do Futebol, uma vez como jogador do Botafogo, outra como dirigente do Glorioso, deu socos no juiz Armando Marques, homossexual assumido, e nas duas ocasiões o mandou a nocaute.

Fosse nos terríveis dias que correm, Neto seria chamado de racista, e Nilton Santos, de homofóbico.

Já Soriano é compreensivelmente tachado de misógino, além de covarde. Agrediria, por exemplo, Anderson Daronco e sua montanha de músculos? Aliás, nem sequer teve coragem de agredir o homem que causou sua revolta, mas a única mulher que havia por perto, Marcielly Santos.

A verdade é que a humanidade sempre viveu num tempo de guerra, num mundo sem sol, como compuseram Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri, na música imortalizada por Maria Bethânia.

Se ontem era simples imputar a violência à ditadura no Brasil, e hoje é à necropolítica que nos infelicita, e às redes antissociais, como explicar o bilionário Cristiano Ronaldo, que nasceu na democrática Terrinha e trabalha na ainda mais tradicionalmente livre Inglaterra, berço, também, do hooliganismo?

Tudo indica que a razão esteja nas palavras, e aí é sociologia raiz, do filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679): “O homem é o lobo do homem”.

Como sempre, enfim, estamos precisando dos conciliadores, dos que pacifiquem.

A solução não está na Rússia ou na Ucrânia. Nem na Venezuela ou na Hungria.

No Brasil está em outubro.

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