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Blog do Paulinho

O que farão se ele não aceitar?

Do OMBUDSMAN da FOLHA

Por JOSÉ HENRIQUE MARIANTE

Imprensa deveria se unir para tirar das redes sociais respostas sobre a eleição

Folha, UOL, O Estado de S. Paulo, O Globo, Extra e G1 formaram consórcio em 2020 para levantar dados da pandemia e escapar da manipulação de informações que o governo Bolsonaro então ensaiava como política de estado. Para situações excepcionais, remédios excepcionais. A iniciativa rendeu uma cobertura isenta e muito bem-sucedida.

A Covid-19 arrefece no mundo inteiro e, ao que tudo indica, assim será também no Brasil. A expertise do premiado trabalho coletivo deveria se voltar agora ao próximo desafio, as eleições de outubro, evento crucial para uma geração.

Se antes havia objetivos claros a justificar a união de forças na maior emergência sanitária em décadas, como a apuração correta dos fatos e a defesa da ciência em um ambiente de desinformação, a próxima empreitada teria razões de outra ordem, mas não menos desafiadoras: a proteção do processo eleitoral e, em última instância, da democracia.

(Os tempos andam literais, então reforço: defesa da democracia, não deste ou daquele candidato, tarefa de eleitores.)

A última semana mostrou que a campanha de Jair Bolsonaro à reeleição se alimentará, quando necessário, das insinuações golpistas, dos ataques ao Poder Judiciário e ao sistema de urnas eletrônicas. A retomada das ameaças, que tiveram seu ponto máximo durante os eventos em torno do 7 de Setembro, não é mero desespero de quem se vê acuado pelas pesquisas. Pressionado por aliados a esquecer o discurso antivacina, algo que a maioria absoluta da população não aceita, o presidente reavivou as querelas do ano passado. Alimentar conspirações é plataforma de campanha.

As instituições estão funcionando, mas é ingênuo imaginar que vamos ficar no pingue-pongue das altercações verbais. Há boa vontade, notadamente do Tribunal Superior Eleitoral, mas também dissimulação de outros órgãos públicos, muitos deles aparelhados. Mais importante, longe dos gabinetes a internet tratará de levar a coisa a ponto de fervura, e o novo consórcio deveria começar por ela.

É imperativo que as redes sociais tornem públicas suas regras para as eleições no Brasil. Reportagem de Patrícia Campos Mello, da última semana, mostra que apenas o Twitter respondeu à questão fundamental para o processo: o que a plataforma fará em caso de contestação do resultado e incitação a violência. Google/YouTube, Facebook, TikTok e Kwai não disseram ainda como vão reagir se ocorrer uma tempestade de desinformação como a que assolou os EUA em janeiro de 2021 e culminou na invasão do Capitólio, em Washington. Já o Telegram ignora olimpicamente as tentativas de contato do TSE.

A mídia profissional deveria cobrar transparência e posicionamento público dessas empresas. Quais são as regras? Não tem regras? Tudo bem, mas que isso fique registrado e que o departamento de relações públicas se vire depois para resolver o problema. Como já comentado nesta coluna, o planeta estará assistindo ao pleito brasileiro e ao comportamento das redes.

Além de esclarecer as regras do jogo, o consórcio poderia também dividir a tentacular tarefa de acompanhar o comportamento subterrâneo das campanhas nas diversas plataformas, principalmente nas menos óbvias. “O centro de comando, de controle das ações, estará em redes novas como o Gettr. Acompanhar esse tipo de coisa é jornalismo investigativo”, diz Ronaldo Lemos.

O colunista da Folha vai mais longe que o ombudsman e imagina um consórcio internacional, como os dos casos Edward Snowden e Panama Papers. “A crise das democracias é tema de interesse mundial. Parcerias poderiam ser feitas com veículos de imprensa, entidades civis e organismos internacionais. Uma paradiplomacia. Não dá mais para esperar ação apenas dos órgãos públicos”, afirma Lemos, que sugeriu em sua última coluna uma troca de informações e procedimentos entre Brasil e Alemanha no caso Telegram.

A verdade é que o campo extremista já vive essa internacionalização há tempos, com intercâmbio financeiro e logístico. Não foi o próprio Steve Bannon quem disse que a eleição brasileira era a segunda mais importante do mundo?

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