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Pelé passou o chapéu entre jogadores do Santos para eu voltar ao Brasil

Da FOLHA

Por ARLINDO KAMIMURA

Eu e um amigo fomos de carona para o Chile em 1969 e, sem um tostão no bolso, pedimos ajuda ao Rei

O ano de 1969 começou muito quente, com duplo sentido. A temperatura subia não apenas nos termômetros, mas apontava para um ano imprevisível, com muita turbulência política no meio estudantil.

Janeiro era o mês em que nós, estudantes moradores do Crusp (Conjunto Residencial da USP), costumávamos viajar de carona pela América do Sul. Naquela época, um paradigma de liberdade, cidadania e um dos poucos exemplos de democracia na América Latina predominava em nosso imaginário: a República do Chile.

Com esse país como destino, eu e meu amigo Lingüí, ambos estudantes quartanistas de física, resolvemos enfrentar essa empreitada com pouquíssimos recursos pecuniários, como era de praxe.

Nossa andança teve início em janeiro, no largo do Taboão, em São Paulo, rumo ao sul do país, pela rodovia Régis Bittencourt, passando pelos estados de Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, atravessando o Uruguai e a Argentina. Finalmente atingimos Santiago do Chile, após vários dias de intensa jornada e muitas aventuras que, quem sabe, um dia volto a relembrar.

Após nos alojarmos na casa de um amigo, estudante que havíamos albergado anteriormente em São Paulo no Crusp, começamos a planejar a volta com o espírito exaurido e totalmente alquebrados com a perspectiva nada animadora de enfrentar todo o caminho de retorno sem um tostão no bolso.

Extenuados e com a moral no estado facilmente imaginável, passeávamos pelas ruas de Santiago quando nos deparamos com uma aglomeração em frente a um luxuoso hotel, no qual, nos foi informado, estava hospedada a delegação do Santos Futebol Clube, para participar do Torneio Octogonal do Chile.

Os olhos do Lingüí, até então semelhantes aos de um peixe morto, voltaram a brilhar como se tivessem luz própria. Apaixonado por futebol e fanático santista, engrolou as palavras. “Japonês, já sei o que vamos fazer, vamos entrar no hotel e pedir ajuda ao Pelé!”, afirmou.

Olhei com pena para meu companheiro, imaginando o quanto nossa viagem tinha afetado seu juízo. Não sou o que se chama um aficionado por esse esporte e tenho o discutível orgulho de nunca ter entrado em um estádio de futebol para assistir a uma partida. Tentei argumentar inutilmente que nem sequer passaríamos pela segurança postada na entrada do lobby.

Quando dei por mim, estávamos, por obra da lábia do Lingüí, no interior da concentração da equipe do Santos. Identificamos imediatamente o Rei, do qual nos aproximamos, e fomos recebidos com extrema gentileza quando relatamos nossa aventura. Procuro agora reproduzir resumidamente o diálogo que se seguiu, o mais fielmente quanto minha memória consente após esses 52 anos.

“Pelé, somos estudantes universitários de São Paulo em uma viagem cultural ‘de carona’ pela América Latina e nos encontramos em uma situação pecuniária não muito favorável para retornarmos à casa. Poderia nos ajudar?”, perguntamos.

“Mas que loucura, meus jovens! Vou ver o que posso fazer!”, ele respondeu, visivelmente compadecido.

Em seguida, segurando um boné, começou a circular entre os atletas, seus colegas jogadores, explicando nossa situação e pedindo uma colaboração. Juntou dessa forma a salvadora soma de US$ 78, que nos permitiu concluir nossa aventura.

Agradecidos e emocionados por esse gesto de solidariedade humana absolutamente espontâneo e altruísta, saímos do hotel, não sem antes ouvir do Rei comoventes recomendações de cuidado e boa sorte.

Após cinco dias, estávamos em São Paulo sãos e salvos.

Nossas vidas seguiram cada qual o seu curso. O Linguí foi fazer doutorado em física do estado sólido na Universidade de Londres e hoje é um próspero advogado.

Nunca tivemos a oportunidade de agradecer devidamente o ato que, por mais simples que seja, demonstrou o caráter e a generosidade do Rei.

Portanto, Pelé, um muito obrigado um pouquinho atrasado!

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