Uma epidemia silenciosa

Da FOLHA

Por TABATA AMARAL

Estupro ainda é tema tabu, mas reflete os desafios que precisamos enfrentar na construção de cidades mais humanas e seguras

Há poucos dias, foi lançado o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2020, que, entre outras coisas, nos mostrou que estamos falhando, e muito, no cumprimento do nosso dever de proteger, sobretudo, as crianças. Os dados até então disponíveis apontavam que, no Brasil, a cada 11 minutos uma pessoa era estuprada.

Hoje, o crime é registrado a cada oito minutos. 85,7% das vítimas são mulheres; 57,9% têm menos de 13 anos; 70,5% são vulneráveis e, em 84,1% dos casos, a vítima é abusada por pessoas próximas a ela e à sua família. Já passou da hora desse tema deixar de ser tabu.

O caso da gravidez e abortamento por uma menina de 10 anos deu visibilidade a uma realidade que, infelizmente, a sociedade se esforça por ignorar.

Em 2020, 40 meninas com até 10 anos fizeram um aborto, todas vítimas de estupro. De 2000 a 2018, 18 meninas de até 14 anos morreram por complicações no procedimento.

As consequências para a vida das crianças que sobrevivem a um estupro são muitas. Estudo publicado em 2016, na Revista Em pauta, da UERJ, apontou estresse pós-traumático, depressão e retraimento social como algumas das consequências da violência sexual.

Apesar disso, políticas de combate à cultura do estupro e aos crimes sexuais ainda enfrentam muita desinformação, revestida de falsos moralismos, e muitas vezes não chegam nem sequer a serem discutidas, que dirá implementadas.

Nossos professores não têm formação ou incentivo para o ensino da educação sexual, dado que algumas pessoas insistem em não entender que isso nada tem a ver com o que chamam de erotização infantil.

As escolas deveriam não apenas ensinar o funcionamento do sistema reprodutor humano, mas também promover discussões sobre respeito, riscos e consenso, de forma transversal e ao longo da educação básica. São essas abordagens que abrem espaço para as denúncias de abusos sexuais.

Há poucos dias, o caso do jogador Robinho –condenado pela justiça italiana por crime de violência sexual– veio à tona. Muitas mulheres se mobilizaram e denunciaram o absurdo que é colocar em posição de destaque e de referência um estuprador. Mas também houve aqueles que, de tão imersos na cultura do estupro, riram e minimizaram as ações do jogador, quando esse disse que a mulher estava bêbada e que o ato não configurava estupro, a despeito das provas.

O que não percebem é que, ao banalizarem os atos de Robinho, estão nutrindo a cultura que permite que bebês, crianças e adolescentes sejam estuprados todos os dias de forma impune no nosso país.

O clube de futebol suspendeu a contratação somente após pressão dos patrocinadores, mostrando que prejuízos financeiros têm peso maior do que os direitos humanos.

Sabendo que este seria meu último artigo antes do primeiro turno das eleições municipais, refleti muito sobre o que deveria escrever. Escolhi chamar atenção para o fato de que o Brasil não será bom para ninguém enquanto nós fecharmos os olhos para um problema tão grave que destrói a vida de tantas crianças.

Estupro ainda é tema tabu, mas reflete, de muitas formas, os desafios que precisamos enfrentar na construção de cidades mais humanas e seguras, sobretudo para as crianças.

Em um momento de tanta polarização, de debates rasos e relativização de todo tipo de violência, faço um apelo aos eleitores para que deixem a apatia de lado e se engajem nas eleições deste ano, cobrando e apoiando candidatos dispostos a, de fato, proteger as nossas crianças.

Disso dependem aqueles que são o futuro e também o presente do Brasil.

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