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Obra de Zé do Caixão não chega perto de sua maior história —a da própria vida

Da FOLHA

Por ANDRÉ BARCINSKI

José Mojica Marins, morto aos 83 anos, teve fãs como Johnny Ramone e Gaspar Noé, mas nunca saiu da Vila Anastácio

José Mojica Marins fez filmes, peças, gibis e livros. Criou personagens fantásticos e histórias que iam além, muito além do além. Mas a força e magia dessas fábulas não chegam perto da maior história de Mojica: a de sua própria vida.

Filho de um zelador de cinema/ toureiro de fim de semana e de uma dona de casa/cantora de tangos, o pequeno José transformou um galinheiro na Vila Anastácio, subúrbio proletário de São Paulo, em estúdio de cinema. Fez faroestes, dramas e filmes infantis, até revolucionar o cinema de terror com “À Meia-Noite Levarei Sua Alma” (1964), filme que lançou Zé do Caixão.

Zé é um caso único na história do cinema. Um personagem que entrou para o folclore brasileiro, como o saci e a mula sem cabeça, mas que também encarnou em seu criador, José Mojica Marins, que o interpretou, dentro e fora das telas, por toda a vida.

Conheci Mojica em meados dos anos 1980, quando ele finalmente conseguiu exibir sua obra-prima “O Despertar da Besta” (1969), então presa na censura. Vi o filme e minha concepção de bom cinema mudou para sempre.

Para o inferno com o bom-gostismo e o bom-mocismo; aquilo era arte vital, um delírio psicodélico que mostrava o terror da era Médici de forma absolutamente visceral e única. Aquilo fazia “Sem Destino” parecer filme da Disney.

Procurei Mojica e implorei para ver a filmagem de sua próxima obra. Cheguei em São Paulo, fui ao “estúdio” (uma quitinete perto da Cracolândia) e o encontrei filmando uma fita, como ele costumava dizer, de sexo explícito. Era o que lhe restava, no Brasil da Embrafilme dos anos 1980.

Nesses 35 anos, minha admiração e amor por este homem só cresceram. Mais que um ídolo, Mojica foi um norte, um artista 100% independente e autoral, um criador que não deixava nada ficar entre sua visão pessoal e a sua obra.

Tive a sorte de viajar o mundo com ele, para festivais e mostras de seus filmes. Vi Paul Schrader, roteirista de “Taxi Driver”, dizendo que nunca tinha visto nada como “O Despertar da Besta”. Vi roqueiros como Rob Zombie e Johnny Ramone praticamente se ajoelharem diante dele. Vi grandes cineastas, como Gaspar Noé e Darren Aronofsky, parecendo colegiais na frente do ídolo.

Quando pedi a Lux Interior, vocalista do grupo de rock The Cramps, uma frase para ilustrar o cartaz de uma mostra de Mojica, ele escreveu: “Coffin Joe… Sinto-me fraco e inferior em seu reino de violência”.

Felizmente, Mojica não teve, no fim de sua carreira, o mesmo destino de tantos artistas brasileiros, que só receberam homenagens na sepultura. Desde os anos 1990, por causa do lançamento de seus filmes no exterior, ele acabou descoberto por uma legião de novos fãs, e foi incrivelmente tocante presenciar o carinho com que ele era recebido em todos os cantos do planeta.

O engraçado é que Mojica parecia alheio a tudo isso. Não sabia quem era Aronofsky ou Johnny Ramone. Chamou o ator Forest Whitaker de “Aquele negão do olho aberto e outro fechado!”. Tratava a todos, famosos ou não famosos, com a mesma simpatia e simplicidade. A verdade é que Mojica conquistou o mundo, mas nunca saiu da Vila Anastácio.

O que importava para ele era o cinema, e só isso. “Quando eu filmava, passava dois, três dias sem comer, mas a equipe ficava de frescurada e eu tinha que parar para eles lancharem”, costumava dizer.

Mojica só se realizava mesmo atrás de uma câmera. Não importava se fosse uma produção com grana ou um curta amador feito com estudantes. Sua paixão era a mesma.

Vou sentir muita falta de Mojica. Muita mesmo. Falta de suas histórias, das confusões em que ele se metia com seu jeito destrambelhado, de sua autenticidade, de seu humor (muitas vezes involuntário), de sua bondade.

Ele foi um segundo pai para mim, é padrinho de nossa filha (que o chama de “Tio Zé”) e me ensinou as maiores lições de vida. Nunca cansava de ouvir a história de como ele fez seu primeiro filme, aos 12 ou 13 anos de idade: “Pra mim, fazer um filme era tão impossível quanto montar um foguete e ir pra Lua”.

José Mojica Marins montou o foguete e foi pra Lua. Godspeed, meu amado amigo.

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