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Minha primeira corrida de São Silvestre

Por JOSE RENATO SÁTIRO SANTIAGO

“Migrantes nordestinos no sul maravilha” desta forma minha família poderia ser definida nos anos 1970. Embora com filhos nascidos na capital bandeirante, meus pais eram considerados forasteiros. Ao final de cada ano isto era evidenciado por um acontecimento irrefutável, a passagem do novo ano.

Enquanto os amigos dos meus pais costumavam passar em família, o nosso endereço era o mesmo, a esquina da avenida Ipiranga, na altura do Vale do Anhangabaú, no centro histórico de São Paulo. Era ali que íamos, meus pais, eu e minha irmã, assistir à passagem dos atletas que participavam da tradicional Corrida de São Silvestre.

Naquele tempo, tendo a largada costumeiramente iniciada por volta das 23:30, o vencedor da corrida demorava cerca de 30 minutos para cumprir o trajeto de 9 km (apenas a partir dos anos 1990, a distância passou para os atuais 15 km). Diante disso, era certo começarmos um novo ano no meio de uma ‘ruma’ de gente nas ruas do centro antigo de Sampa. Certa vez, em uma destas edições assistida ‘in loco’, notei que um dos corredores saiu da rua, no meio da corrida, e foi em direção a um bar. Preocupado, perguntei ao meu pai: “Por que ele saiu? Assim ele vai perder muitas posições…”. Com ar de sabido, meu pai logo me acalmou: “Ele só foi fazer pipi…”. Devo confessar que a resposta não apaziguou minha tensão, afinal, centenas de corredores o tinham ultrapassado. Assistir a corrida era sempre uma festa.Os ordenados de um recém formado em engenharia eletrônica, que complementava sua renda trabalhando no balcão da Ponte Aérea do aeroporto de Congonhas e de uma professora de magistério nos permitia este luxo.

As idas para passar o Ano Novo com meus avós em Fortaleza só se tornaram possíveis após alguns anos, à medida que as condições financeiras alcançaram outros patamares. As longas viagens de três dias, com mais duas crianças (somando meus irmãos mais novos, “Éramos Seis”) até terras alencarinas dentro de um possante Maverick, cor de abóbora, eram, ainda que cansativas, muito prazerosas. Estrear um novo ano em família sempre foi motivo de alegria. Ainda assim, em minha mente, algo parecia ter ficado para trás… talvez perpetuamente. Corrida de São Silvestre passou a ser um programa a ser assistido pela televisão.

Embora nascido dentro de uma família de esportistas, jamais fui exemplo de grande praticante. Ainda assim, me permito deixar certa modéstia de lado. Entre os meus primos, eu abafava. Também, pudera, por ser o mais velho entre eles, meu porte físico sempre foi um grande diferencial. A entrada na Faculdade ainda aos 17 anos abreviou o fim de qualquer intenção esportiva. Sou grato por isso. Os goleiros também rs rs rs…

O retorno às atividades físicas frequentes chegou a ser ensaiado em 2004. No entanto, não por muito tempo. As dores de joelho associadas com viagens profissionais e, certamente, boas doses de preguiça, me tornou uma pessoa cheia de justificativas para me manter ‘fora de forma’. Eram tempos em que as lembranças da Corrida de São Silvestre se tornaram lendas. Poucos passaram a acreditar nelas. Até que veio 2018…

Impulsionado por pessoas queridas, promovi meu retorno às corridas. Palavras contrárias foram muito recebidas também. Mas tente desafiar alguém com sangue cearense que ele não irá conseguir fazer algo? Foi desta maneira que voltei a participar de uma corrida de 10 km na cidade de Caucaia, ao lado de Fortaleza. O sol escaldante me fez sofrer muito. Concluir a corrida foi uma vitória, mas definir um próximo desafio era essencial. Queria reviver uma São Silvestre e, se possível, de uma maneira diferente.

Foi com esta intenção que participei da mais recente edição da corrida em 2019. Aproveitei intensamente cada segundo desde a saída no meio da ‘muvuca’ com mais de 30 mil corredores na Avenida Paulista, ao longo das inúmeras ruas de Sampa, pela famigerada e interminável subida da Avenida Brigadeiro Luís Antônio e enfim, de volta à Avenida Paulista.

Aliás… chegar à Avenida Paulista correndo, ainda que esgotado por um sol que foi intenso durante toda a prova, foi o meu recorde mundial, imbatível e eternizado em meu coração. Uma alegria ter revivido algo que, se me conheço bem, voltará a acontecer.

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