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Os pais do futebol brasileiro

Por ROBERTO VIEIRA

‘O que o pai falou aparece na boca do filho, e muitas vezes descobri que o filho era o segredo revelado do pai’

Nietzsche


6 de outubro de 1886. John Miller agoniza no hospital em Glasgow. A cirurgia de hérnia poderia ter sido realizada em São Paulo, mas Miller não confiava muito na medicina brasileira. Nos seus últimos instantes de vida, Miller lembra da morte de seus filhos Adolph e Carlota. Felizmente, Charles e Henry estão estudando ali perto, em Southampton, apaixonados por um tal de futebol. Menos mal.

John Miller morre e seis anos depois seu filho Henry também falece, em São Paulo, vítima de gastroenterite, quase no mesmo instante em que chega à capital paulista o jovem alemão Oscar Friedenreich para trabalhar como desenhista no serviço público. Oscar vem de Blumenau e está enamorado de uma professora negra chamada Mathilde A vida de funcionário público e os encontros com os europeus e a aristocracia paulistana preenchem a vida do rapaz.

Vindo de Guayaquil, George Emmanuel Cox é um inglês com gestos cavalheirescos e paixão esportiva, herdados do pai, vice-cônsul da Inglaterra no Equador. O Rio de Janeiro do final do século XIX não possui um clube ideal para tomar seu chá, beber seu uísque e jogar críquete. Então, George cruza a Baía da Guanabara e funda o Rio Cricket em Niterói com amigos britânicos.

John Miller e Oscar Friedenreich são nomes completamente desconhecidos para George Cox. E vice-versa. Todos são apenas nomes estrangeiros no país que fala português nas ruas e algum outro idioma europeu nos bancos, salões de festa e clubes desportivos.

O primeiro nome abrasileirado no relato é o do marinheiro lusitano Manoel Nunes da Silva. Longe dos salões atapetados, Manoel morre na antiga capital federal em 1922, pobre e perdido em São Cristovão, deixando órfão um menino de nove anos de idade para ser adotado pelos patrões da esposa. Nesse mesmo ano, o Vasco da Gama empata em 0x0 com o São Cristovão e se torna campeão da primeira divisão da Liga Metropolitana de Futebol. O clube de origem portuguesa e jogadores semi-analfabetos e suburbanos ganha o direito de disputar a divisão principal do certame carioca, local onde reinavam, soberanos, os descendentes de George Cox.

João Ramos do Nascimento é o primeiro negro deste relato. Entregador de leite, alto e forte, mineiro de Campos Geraes, João tem cinco anos quando morre o marinheiro Manoel Nunes no Rio. João também é o primeiro personagem deste relato a se apaixonar pelo futebol. Vira artilheiro, ídolo da sua cidade, até o dia em que seu faro de goleador não funciona, o dono da padaria fica enfurecido e João vai se refugiar em Três Corações. Tempos depois irá viver com a família em Bauru, interior paulista, onde continua fazendo seus gols pelo clube da cidade apesar do joelho fragilizado pelos pontapés dos adversários.

Quis o destino que, no primeiro de maio de 1950, o Bauru Atlético Clube de João Ramos jogasse contra o poderoso São Paulo treinado pelo filho do marinheiro Manoel Nunes da Silva. João abre o marcador para o Bauru, brilha em campo, mas o tricolor paulista vence por 3×1.

Do outro lado do país, em 1924, com 27 anos de idade, o índio alagoano Amaro Francisco dos Santos desiste de ser sapateiro em Olinda e aceita o convite do irmão Manoel para tentar a sorte no município de Pau Grande, no Rio de Janeiro. Na sua breve estadia em Pernambuco, Amaro namora meio mundo e conserta os sapatos do comerciante Antonio Rodrigues de Menezes que gosta mesmo é de tomar banho de mar na praia do Pina e se apaixonará pelo Flamengo do Rio durante a excursão do clube ao Recife em 1925.

Menezes também gosta de ler os jornais da capital federal com notícias, ainda raras, sobre futebol. E se admira da coragem de um pernambucano com seu sobrenome, Mário Leite Rodrigues, que faz sucesso sendo preso no Rio de Janeiro por seus artigos e denúncias. Antonio imagina que seria melhor para Mário cuidar mais do tal futebol que de política e desquites. Tanto barulho ia acabar mal, ora pois!

É o que também pensa José Antunes Coimbra, natural de Tondela, em Portugal. Coimbra chega ao Brasil aos 10 anos, em 1912, abre uma confeitaria, depois vira alfaiate e não vê graça nos portugueses do Vasco, caindo de amores pelo Flamengo após derrota do rubro negro diante do América por 4×0. Coimbra gosta mesmo é de ser goleiro e se emociona com a morte do filho de Mário Rodrigues, assassinado por uma bala que tinha como endereço o próprio Mário Rodrigues.

Os tempos vão mudando. Mesmo sem ser um Cox, Thomas Silva funda seu próprio clube no bairro do Paiva, também no Rio de Janeiro. O clube tem seu time de futebol com o exótico uniforme de camisas rubro negras e calção azul. A sede do clube é a própria casa de Thomas. No dia 13 de junho de 1928, na alegria da festa de aniversário da esposa, Thomas morre deixando saudades no filho que leva seu nome e que um dia será o substituto, como jogador e estrela, do filho de Manoel Nunes no Flamengo e na seleção brasileira, além de se tornar no maior ídolo do filho de João Ramos.

De volta às Minas Gerais, o bancário Oswaldo Andrade distribui bananas com seus filhos e colegas que batem bola no São Cristóvão do conjunto habitacional do Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriarios, projetado pelo arquiteto White Martins. Bananas são ricas em potássio e evitam cãibras, segundo o simpático bancário. A maior alegria de seu Oswaldo será receber uma camisa autografada e um abraço do filho de João Ramos, colega de seleção de seu filho, numa tarde de sol em Caxambu, em 1966. Seu Oswaldo cai no choro.

Anos depois, o filho de Oswaldo é obrigado a abandonar o futebol e resolve cursar medicina, mesmo curso de um dos filhos do autodidata cearense Raimundo Oliveira, apaixonado por autores clássicos gregos e fiscal de renda por profissão. Este filho de Raimundo se torna o segundo calcanhar mais famoso da história, perdendo apenas do calcanhar de Aquiles, e acaba enveredando pelos caminhos políticos trilhados durante o final dos anos 40 pelo filho do marinheiro lusitano Manoel Nunes da Silva.

Raimundo e José Coimbra vivem para comemorar a amizade e parceria de seus filhos, assim como João Ramos e Oswaldo Andrade.

John Miller nunca comemorou um gol do seu filho. Nem Manoel Nunes. Thomas nunca abraçou seu filho na conquista de um título. Mas com certeza estavam presentes na memória afetiva.

Mário Rodrigues morreu de tristeza, indiferente à revolução literária e jornalística de seus filhos. Filhos que ajudaram, fora do campo, a reescrever a história social, econômica e racial de um povo através dos desportos.

Nenhum deles, nem mesmo o diplomático George Cox, ousaria dizer que o futebol uniria os sonhos operários de Edevair de Souza Faria aos do menino de ouro do Mackenzie, João Evangelista Belfort Duarte – ambos apaixonados pelo mesmo América.

Porém, seja o DNA escocês, inglês, português, maranhense, mineiro, cearense, indígena, pernambucano ou carioca.

Em cada lágrima, gol, defesa, em cada drible do futebol brasileiro, existiu um filho, segredo revelado de um pai.

PAIS E FILHOS NO TEXTO

John Miller: Charles e Henry Miller

Oscar Friedenreich: Arthur Friedenreich

George Cox: Oscar e Edwin Cox

Manoel Nunes da Silva: Leônidas

João Ramos do Nascimento: Pelé

Amaro Francisco dos Santos: Garrincha

Antônio Rodrigues Menezes: Ademir Menezes

Mário Leite Rodrigues: Mario Filho e Nelson Rodrigues

Thomas Silva: Zizinho

Oswaldo Andrade: Tostão

José Antunes Coimbra: Zico, Edu, Antunes e Nando

Edevair de Souza Faria: Romário

Raimundo Oliveira: Sócrates e Raí

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