Os rolos de quem recebe 89% da arrecadação do estádio de Itaquera

Andres Sanches e Raul Corrêa da Silva – janeiro de 2019

No dia 23 de janeiro, o Blog do Paulinho recebeu relatório do MPF que detalhava um pouco da relação entre Caixa, BNDES e Corinthians no negócio estádio de Itaquera.

Trechos das páginas sete e oito do referido documento, em resumo, esclarecem:

  • todo o dinheiro arrecadado na Arena de Itaquera (ingressos, shows, eventos) são destinados ao Arena Fundo;
  • a empresa “ARENA ITAQUERA S/A”, na condição de cotista senior, é a destinatária de toda a arrecadação do estádio, enquanto o Corinthians, cotista subordinado, nada recebe;
  • os donos da ARENA ITAQUERA S/A são a Odebrecht (11%) e a JEQUITIBÁ PATRIMONIAL (89%)
  • ambas tem obrigação de utilizar o dinheiro para quitar pendências do Corinthians com o BNDES

Documento de composição da JEQUITIBÁ indica que a empresa, inicialmente (desde 2010), era denominada “BRL TRUST Investimentos”, mesmo nome, coincidentemente, da atual gestora da ARENA FUNDO junto à CVM (Comissão de Valores Mobiliários).

Dos administradores listados, Rodrigo Boccanera Gomes e Maurício da Costa Ribeiro permaneceram quando, em março de 2011, a razão social foi alterada, de fato, para “JEQUITIBÁ”:

No dia 24 de setembro de 2013, Rodrigo e Maurício dividiram R$ 449 mil em supostos “dividendos”, apesar do estádio sequer ter sido inaugurado.

Meses depois, em janeiro de 2014, ambos assinaram autorização para alienação das cotas da ARENA ITAQUERA S/A, que pertence 89% à JEQUITIBÁ, como garantidoras do empréstimo junto ao BNDES, com intermediação da CAIXA, para utilização nas obras do estádio do Corinthians.

Em 2016, a dupla recebeu mais dividendos, desta vez R$ 1.084.000,00, de um negócio que parece dar lucro somete à JEQUITIBÁ.

Apesar dos indícios de “lucratividade”, há menos de um mês, precisamente no dia 15 de abril de 2019, a JEQUITIBÁ aprovou cisão parcial da empresa, em favor da BARONEZA PATRIMONIAL (antes denominada WANAKA SP).

Na cisão, a sociedade cindida transfere uma ou mais parcelas do seu patrimônio para sociedades existentes ou constituídas para esse fim, extinguindo-se a cindida, se ocorrer a versão de todo o seu patrimônio, ou dividindo-se o seu capital, se parcial a versão.

Um dos principais interessados neste negócio, o Corinthians, mesmo diante de assunto de extrema relevância (a nova composição da empresa que recebe 89% de toda a arrecadação do estádio de Itaquera), talvez não tenha sido informado da manobra, porque também não revelou-a a seus conselheiros.

Talvez porque seja difícil explicar o procedimento sem que suspeitas sejam levantadas.

A BARONEZA foi constituída em março de 2018, em nome de Vinicius Aguillar Duarte e Eduardo Duarte, aparentemente profissionais em “alaranjar” contratos sociais.

Vinicius tem 25 empresas em seu nome do estado de São Paulo e 79 no Rio de Janeiro; Eduardo, apesar de aposentado há quase duas décadas, é dono de 80 CNPJs no Rio de Janeiro, 34 em São Paulo, 3 em Santa Catarina, um no Rio Grande do Sul, um no Paraná e um na Bahia.

Ambos, também por conta disso, foram investigados pela Operação “Lava-Jato” da Polícia Federal, por figurarem, em certo período, como sócios da empresa Queiroz Galvão.

A dupla, que revezava-se na gestão. ao menos no papel, de seus CNPJs, foi investigada, também, por irregularidades cometidas pela VARSAK RJ PARTICIPAÇÕES.

Voltando à entrada da empresa BARONEZA na JEQUITIBÁ, coincidentemente, no mesmo dia 15 de abril em que a cisão aconteceu, Vinicius e Eduardo passaram o controle da empresa para Rodrigo Boccanera Gomes e Maurício da Costa Ribeiro.

A alteração de nome, apesar de também registrada nesta data, é descrita como oriunda de janeiro, sugerindo premeditação de procedimentos e possível fraude para ocultação de bens, valores e até tentativa de escapar de possível arresto oriundas de investigações policiais.

Vale lembrar que toda a operação comercial do estádio de Itaquera é objeto de investigação da Operação Lava-Jato.

Os conselheiros, torcedores e associados do Corinthians, diante do quadro de absoluta nebulosidade à cerca dos negócios da Arena alvinegra, revelado nessa e noutras matérias do Blog do Paulinho, tem razões de sobra para preocupações.

Todos os dirigentes que assinaram os documentos viabilizadores da obra, também.

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