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Por ora, não importa o que acontece no futebol

Rodolfo Landim

Da FOLHA

Por JUCA KFOURI

Foi duro falar de bola depois de Brumadinho; ficou pior depois do Ninho do Urubu

No fim de semana vi o Liverpool, o Real Madrid, o Santos, o São Paulo, o Manchester City, o Corinthians e o Barcelona.

Vi sem nenhuma emoção, mecanicamente, por obrigação.

Até a NBA eu vi madrugada adentro.

Ingenuamente, achei que os três grandes paulistas seriam o tema desta coluna.

Não deu.

Entenda que aqueles dez meninos mortos carbonizados no Ninho do Urubu impediram vibrar com gols ou com cestas.

Entre o futebol e o basquete, vi o belo filme “Guerra Fria”, sobre como a geopolítica influenciou o amor de um casal polonês no pós-guerra.

Mas sem conseguir esquecer a tristeza e a indignação pelas mortes no Rio.

Tristeza porque morreram garotos da idade de minha neta mais velha, e é impossível não se colocar no lugar dos pais e avós daquelas crianças.

Indignação por constatar a covardia dos responsáveis pela tragédia em assumir seus papéis, dos cartolas rubro-negros às autoridades municipais.

Os cartolas porque incapazes de enfrentar uma entrevista coletiva e cheios de evasivas infames, como argumentar que a falta de alvarásnão significa nada, quando se sabe que a prefeitura interditou o Ninho do Urubu e o Corpo de Bombeiros reprovou as condições do centro de treinamentos.

As autoridades municipais porque incapazes de assumir que, se houve interdição, houve também cumplicidade ao permitir que o Ninho seguisse aberto.

O recente presidente rubro-negro, Rodolfo Landim, e o CEO do Flamengo, Reinaldo Belotti, trabalharam com Eike Batista, e parecem ter aprendido com o falso empreendedor as artes da prestidigitação.

Temerosos de punição, embora saibam que na Vale os principais responsáveis seguem impunes e alguns engenheiros foram pegos como bodes expiatórios, têm sido incapazes de assumir responsabilidade pelo ocorrido, assim como os que os antecederam permanecem mudos e desaparecidos.

Talvez culpem o eletricista.

Nem desculpas tiveram a grandeza de pedir.

Há uma enorme diferença entre fatalidade e imprevidência.

Fatalidade foi a queda do avião do Manchester United, em Munique, em 1958, quando uma nevasca causou a tragédia.

Já a queda do avião da Chapecoense foi imprevidência mesmo, ganância de quem contratou o voo e da famigerada Lamia, que voava no limite do combustível.

Passada a comoção, até hoje as vítimas penam para receber seus direitos.

Tragédias de tais magnitudes comovem e têm o condão de fazer com que muitos se limitem às lamentações e demonstrações de solidariedade. É compreensível, é humano, é até bonito, mas é pouco.

Além de embutir a complacência, com a qual a imprevidência conta para ficar impune.

O incêndio no Ninho do Urubu não foi uma fatalidade.

Foi imprevidência, descuido, desleixo, negligência, irresponsabilidade, escolha o sinônimo.

O mínimo a ser exigido é dignidade por parte da direção flamenguista ao encarar a questão sem subterfúgios.

E dignidade vai muito além de caridade ou paternalismo numa hora dessas.

Porque, na verdade, o surpreendente é que tenha acontecido só agora, tamanho é o desleixo nacional, sempre na crença de que nada de mau acontecerá.

Pois não é que o prefeito Bruno Covas impôs sigilo sobre as inspeções de pontes e viadutos paulistanos?

O que uma coisa tem a ver com a outra? Tem tudo a ver.

Porque o prefeito carioca Marcelo Crivella mantém aberto o que interdita.

Entendeu?

Não?

Nem eu.

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