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Como ainda gostar de futebol?

Mafia da Loteria 0

Da FOLHA

Por JUCA KFOURI

Voltar aos 12 anos.

Não tem outro jeito. Quando a bola começa a rolar no apito do árbitro, você tem de voltar a ser criança.

Porque todos fazem a mesma pergunta: “Como é que você pode continuar gostando de futebol se sabe de toda a sujeira dos bastidores?”.

A resposta poderia sair pela tangente, pois paixão não se explica, se sente.

Há muito tempo a questão está posta. A sujeira é tanta, a manipulação é tamanha, que só mesmo um tonto para seguir apaixonado.

Só que não é bem assim, é muito mais que isso.

Conto um conto.

Em 1982, quando a revista “Placar” revelou a existência da Máfia da Loteria Esportiva, com quadrilhas espalhadas pelo país -125 denunciados, entre jogadores, cartolas, empresários- houve uma semana em que soubemos os resultados antecipados de uma porção de jogos.

Como esperar que acontecessem e depois dizer aos leitores que já sabíamos?

Não nos ocorreu a sacada de mestre de Janio de Freitas que, cinco anos depois, publicou, nos anúncios classificados desta Folha, com cinco dias de antecedência, o resultado da concorrência pública pela ferrovia Norte-Sul.

Os prognósticos da Loteca fechavam às quintas-feiras.

No dia seguinte procurei três brasileiros de indiscutível credibilidade, mostrei os resultados que conhecíamos numa folha de papel, pedi que assinassem e datassem e esperamos os jogos do fim de semana.

Dom Paulo Evaristo Arns, cardeal arcebispo de São Paulo, Mário Sérgio Duarte Garcia, que viria a presidir a OAB no ano seguinte e havia presidido a OAB-SP, Sócrates, então no Corinthians, mantiveram o segredo.

Pois não é que fui a um dos jogos que sabia manipulado na torcida para que o centroavante do time vendido impedisse a mutreta e arruinasse a informação que tínhamos?

Infelizmente, a informação prevaleceu.

A reportagem, do saudoso Sérgio Martins, acabou publicada em outubro daquele ano, um escândalo sem precedentes na história do futebol brasileiro, e marcou o fim da credibilidade da Loteria Esportiva.

Outros escândalos vieram em seguida e nem por isso o futebol deixou de ser apaixonante.José Maria Marin está preso, Ricardo Teixeira e Marco Polo Del Nero impedidos de sair do país, João Havelange.

O FBI segue no encalço da FIFA.

Neymar está enrolado com a Justiça, Messi condenado por sonegação, e o futebol segue uma paixão.

Só mesmo se você voltar aos 12 anos… Afinal, ninguém deixa de gostar do Brasil por causa de corrupção endêmica e da desfaçatez dos governantes.

Mas seria muito bom se você não aplaudisse gol de mão de seu time, se deplorasse o dinheiro nebuloso para contratações, e não votasse em político ladrão.

Porque se uma criança de 12 anos não sabe nada disso e fica feliz com a vitória do time, você que sabe não deveria, ao menos, ser conivente.

O que não impede o olhar romântico, o auto-engano, cada vez que a bola começa a rolar.

Quem sabe um dia, depois de muitos escândalos, haja quem possa gostar de futebol com a idade que tem.

Neste dia, que certamente não verei, lembre-se dos que denunciaram a podridão sem esquecer a paixão.

NOTA DO BLOG: para saber mais sobre a “Máfia da Loteria”, citada na coluna do Juca Kfouri, clique no link abaixo para ter acesso à íntegra da matéria:

Homenagem ao grande Sérgio Martins: Placar – A Máfia da Loteria (na íntegra)

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2 comentários sobre “Como ainda gostar de futebol?

  1. Parei de ler no tal de “mestre janio de Freitas”.
    Petista Juca elogiando petista janio. Faltou dizer quem pagou quem para elogiar ou ser elogiado. E se foi com dinheiro que resta das empreiteiras da Lava Jato.
    Faltou citar Paulo Henrique Amorim, Mônica Bergamo, Franklin Martins e outros pseudojornalistas que escrevem a serviço do PT.

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