Paulo Evaristo Arns

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EDITORIAL DA FOLHA

Pode-se dizer sem margem de dúvida que nenhum outro líder religioso —e poucas figuras no mundo laico– teve papel comparável ao de dom Paulo Evaristo Arns na luta contra os abusos e as violências que caracterizaram o regime militar no Brasil (1964-1985).

Sua morte aos 95 anos suscita um movimento de homenagem e gratidão por parte de todos os que, perseguidos e torturados pela ditadura, ou tendo passado pela experiência de ter familiares acossados e mortos, encontraram no então arcebispo de São Paulo um constante e corajoso defensor.

Tempos de opressão possuem o condão de revelar personalidades excepcionais. Dom Paulo, ao lado do advogado Heráclito Fontoura Sobral Pinto na ditadura de Getúlio Vargas, do reverendo presbiteriano Jaime Wright ou de Raymundo Faoro, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil durante o governo Geisel, foi uma delas.

Haverá quem diga que, mesmo no auge da truculência, o cardeal Arns não teria conhecido riscos diretos a sua incolumidade física. Outros, entretanto, calaram-se ou mantiveram atitude mais cautelosa —caso do próprio Jorge Bergoglio, universalmente estimado hoje na figura do papa Francisco, durante a ditadura argentina.

Não seria o caso de minimizar, por outro lado, o potencial de autonomia nas ações e de ameaça, direta ou indireta, que acompanhava setores da repressão.

Foi em 1975, com a morte de Vladimir Herzog na prisão, que o papel público de dom Paulo revelou-se amplamente. A missa em memória do jornalista assassinado, celebrada na Catedral da Sé, foi um marco na resistência, ainda silenciosa, à ditadura militar.

Surpreendia a muitos —ainda condicionados a identificar na igreja as marcas do conservadorismo e da subserviência ao poder– a presença de um cardeal lutando pelos direitos humanos e dedicado à organização das camadas populares.

Eram tempos em que uma visão maniqueísta da história e da política tinha condições de prosperar, a ponto de minimizarem-se as violências e os assassinatos cometidos pela guerrilha de esquerda.

Neutralizado em suas atividades com a ascensão ao papado de João Paulo 2º (que representava a luta contra outro tipo de ditadura e de opressão, a da Polônia comunista), o cardeal Arns viu o gradual enfraquecimento do seu ideal de igreja popular e das comunidades eclesiais de base em São Paulo.

Feliz ou infelizmente, seu tempo não é o nosso, mais descrente, menos simples, talvez menos esperançoso. Dom Paulo Evaristo Arns representou, todavia, o que sua época inspirava de melhor: a crença, a simplicidade e a esperança.

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