Sobre o basquete brasileiro

basquete

Por FRANCO JR.*

Me chamo Franco Jr., tenho 37 anos e acompanho seu blog desde o início, sendo minha leitura matinal diária durante todos esses anos. Sou fã do seu trabalho, da sua maneira humilde de reconhecer os erros e de sua maneira correta de se posicionar.

Essa é a primeira vez que eu escrevo e gostaria de fazer uma crítica, que espero que consiga fazê-lo de maneira construtiva e que, de maneira alguma seja interpretada de maneira confrontativa.

Não sou um grande fã de futebol em si, em relação ao jogo. Não consigo ficar 90 minutos sentado olhando a tela e vendo o jogo. Meu esporte é o basquete.

Sempre pratiquei desde criança, acompanho NBA, basquete nacional, europeu, tudo de maneira diária.

Isso posto, gostaria de fazer alguns comentários em relação ao seu post sobre o basquete, feito há alguns dias, com uma visão diferente.

O nível do basquete brasileiro é péssimo. Ponto. O jogo praticado aqui no brasil em nada se assemelha ao praticado no mundo. NADA. Quando você vê um jogo europeu ou nba e olha o que se pratica aqui, parece outro esporte!

O basquete, de todos os esportes coletivos é o mais tático e o mais detalhista. Jogadas são desenhadas, por exemplo para que o cara grande receba a bola quando está sendo marcado por um cara pequeno, por exemplo. Ou, para no momento certo, a bola ser recebida dentro do garrafão, e rapidamente tocada para o outro lado, para alguém livre de 3 pontos arremessar. Essas trocas constantes, geram o que chamamos de mismatch. O mismatch pode acontecer também quando um pivô sai para fazer a cobertura, abrindo espaço para um jogador mais baixo e mais rápido cortar em direção a cesta.

São apenas 2 exemplos das minúcias e pequenos detalhes de um jogo de basquete. Costumo dizer que, quando assisto a um jogo, eu só vejo a bola na hora em que ela está sendo arremessada. Gosto de observar todas as movimentações, vendo qual a intenção e o que o outro time está fazendo para impedir. São milhares de movimentações, corta-luzes com e sem bola, trocas da defesa, etc.

Por que estou fazendo essa introdução ? Para argumentar que o problema não são os NBA. O problema são os jogadores que jogam aqui, de uma maneira geral e, nas olimpíadas, o técnico tem uma parcela gigante de culpa.

Se você assistir os jogos do Brasil na olimpíada de maneira minuciosa, como os exemplos que dei acima, você verá a frustração dos jogadores NBA (vamos chamá-los assim) em ter as jogadas quebradas o tempo todo. No basquete, uma jogada tem início, meio e fim. Jogada quebrada é quando a movimentação não é feita. Nesse caso, ou parte-se para o improviso ou inicia-se um novo ciclo.

Os jogadores que jogam aqui, tem uma noção tática quase inexistente. Com isso, muitas, jogadas não são feitas por detalhes como uma batida de bola a mais, um passei mais lento ou uma corrida extra para levar o marcador para fora, dentro de outros detalhes.

Nossos técnicos são muito ruins e chega a ser vergonhoso acompanhar os treinos. Muitas vezes se parecem mais com aulas de educação física na escola.

Toda essa birra com os jogadores da NBA, começou lá atrás. No começo dos anos 2000, quando os jogadores tinham que brigar para jogar fora do país (como foi o exemplo do Nenê que abandonou o Vasco para ir para a NBA, Varejão na Europa, etc)

Os jogadores estavam insatisfeitos com a maneira que o jogo era jogado aqui.

Criou-se uma cultura de “temos que jogar do jeito brasileiro”, que foi criada durante a geração do Oscar.

Sobre ele, um dos maiores jogadores da história sem dúvida. Porém, um problema tanto com seu jeito de jogar quanto na sua maneira de pensar. (Há a opinião de Amaury Passos, sobre isso: http://globoesporte.globo.com/basquete/noticia/2013/12/amaury-pasos-diverge-de-oscar-sobre-brasileiros-da-nba-ele-e-marqueteiro.html)

Creio que o problema é muito parecido com o do futebol, que relata a cultura brasileira. Da mesma maneira que jogadores de futebol são minimamente instruídos, não sabem nada de tática, posicionamento e os técnicos são meramente motivadores.

Quando vão atuar em grandes centros, a grande maioria não dá certo e volta.

Pense que os técnicos brasileiros são meio que “Joéis Santanas” que dizem que não preciso de todo essa blablabla tático. Fomos campeões do Pan em 87.

O Brasil ficou mais de uma década sem se classificar para as olimpíadas com técnicos brasileiros fracos.

No pré-olímpico, de 2007 se não me engano, houve uma briga no vestiário, pois, o técnico brasileiro não sabia o que fazer, estava chamando jogadas erradas, substituições bizarras e o grupo de jogadores de fora peitaram o técnico e o brasil ganhou o jogo no 2o. Tempo. ( https://rebotenopan.blogspot.com.br/2007/09/entrevista-nen-fala-sobre-o-pr-olmpico.html)

Usando o corporativismo, o Oscar começou a descer a lenha nos jogadores falando de patriotismo, etc, dizendo que não foi para a NBA por que não quis. Ele não foi para a NBA pois foi draftado na 6a. Rodada e queria ganhar salário de estrela. Foi por dinheiro. Não foi por patriotismo.

Após a queda do técnico Lula Ferreira, foi contratado o Moncho Monsalve. Com pouco tempo de trabalho, já foi possível notar a grande diferença tática em relação aos antecessores.

Nesse período a rusga com os jogadores da NBA ficou mais forte. O motivo foi o seguinte:

Os times da NBA , para liberar os jogadores , faz com que seja feito um seguro, que geralmente é pago pelas federações. A CBB, não quis pagar e os times não liberaram os jogadores. Ponto. E aí começou todo o processo de fritura, falando que são mimados, não são patriotas, etc. Imagina você, que joga na NBA, que teve que sair fugido de um basquete falido, viajando de ônibus pelo país, com mais de 2m de altura, passando aperto, sendo mal tradado por uma confederação que só desviou dinheiro, não recebendo e tendo que depois, ter que jogar por eles e ainda ser jogado contra a galera ?

Ao me recordo de todos os detalhes, mas a história é longa. Tão podre quanto os outros esportes. Indico o blog do Fábio Balassiano, que faz um trabalho muito parecido com o seu, mas em relação a confederação de basquete. http://balanacesta.blogosfera.uol.com.br/tag/cbb/

Voltando à quadra, após essa breve e resumida introdução sobre o histórico dos NBA, Nenê foi o melhor jogador do Brasil, por muito. Digo sempre que ele é o melhor jogador brasileiro desde que Oscar parou. E com essas picuinhas todas, desperdiçamos o auge dele. O mesmo aconteceu com o Marcelinho Huertas, que quando era novo tinha que amargar banco de reservas para jogadores daqui, como o filho do Hélio Rubens.

Marquinhos é uma estrela aqui no basquete nacional, mas é horrível em nível internacional. Falta conhecimento tático. Alex é um defensor excelente na bola, mas é muito baixo para a posição dele, em nível internacional.

Quando você diz que tem que convocar os melhores, realmente são os melhores. Nenê mesmo com 34 anos é nosso melhor jogador. Ele é fantástico! Tanto que é muito, muito respeitado na NBA e só não teve uma carreira maior por conta das contusões, da doença ( câncer ). Leandrinho já está em fim de carreira, mas ainda é um dos maiores finalizadores em velocidade da NBA. Fez parte do time campeão do ano passado e teve papel importantíssimo nas finais, carregando o Golden State na hora do aperto. Marcelinho Huertas está em declínio, mas temos o Raulzinho que entrou muito bem. Varejão está sempre com problemas de contusão.

Não há jogadores melhores do que esses para serem convocados. O nível é baixíssimo.

Em relação ao treinador, Ruben Magnano foi um grande, mas grande responsável pelas derrotas, principalmente para a Argentina. É o técnico que decide as jogadas, a defesa e tudo mais. Foram todas decisões equivocadas. As rotações de ataque foram pífias. As jogadas só saiam quando Nenê conseguia criar. Ele manteve o Huertas em quadra quando Raulzinho estava melhor, deu pouco tempo de jogo para o Benite, manteve o Hettsheimer no time titular quando o Augusto Lima estava bem. Ele foi 70% responsável pelas derrotas.

Ninguém correu mais, brigou mais que o Nenê nessa olimpíada, que teve que tirar leite de pedra com esses jogadores bizarros que jogam aqui no NBB, sem conhecimento tático algum e que jogam para esses técnicos que só sabem dar aula de educação física.

Os ex jogadores da geração do Oscar são corporativistas que mamam nas tetas das federações até hoje (vide o Vanderley que é um dos diretores).

O técnico do masculino não tem obrigatoriedade de chamar ninguém. Simplesmente são os melhores.

Ver os jogadores da NBA jogando com esses caras que jogam aqui, é como ter um time com algumas crianças, sabe? Que atrapalha? Parece adultos tendo alguns mirins no time tamanha a diferença tática.

Ao ver as transmissões de TV, por exemplo, os comentários são sempre “Raça, atitude, comprometimento”. Ninguém fala das rotações de ataque e defesa, dos pick n rolls, mismatches, etc.

Com relação ao feminino, o basquete inexiste. As jogadoras são horrorosas , não têm o mínimo de noção de jogo , nem de fundamento, nem nada. Para piorar, os técnicos do feminino são ainda piores que o masculino. A Érika, já foi a melhor pivô do mundo, desperdiçada com técnicos que não sabiam usá-la aqui. Fez muito sucesso na WNBA. Tem um jogo refinado perto da cesta. O que o técnico faz ? A coloca para jogar longe da cesta, sendo que ela não tem arremesso. A defesa parece defesa de treino de time infantil e momentos em que todo mundo corre atrás da bola sem saber o que fazer. A liga nacional só tem 6 times com o risco de perder ainda os patrocínios.

O basquete feminino já morreu faz tempo.

Sou de São paulo e convido você para assistirmos jogos da liga nacional (masculina, pois feminino não tem time aqui, ainda) para te mostrar o quão ruim é o nível.

Esperto ter ajudado a esclarecer alguns pontos e contribuído.

Como referências, sugiro alguns blogs nacionais de basquete que fazem um ótimo trabalho:

http://bolapresa.com.br/

http://jumperbrasil.wordpress.com

http://vinteum.blogosfera.uol.com.br

http://balanacesta.blogosfera.uol.com.br

Caso queria publicar, o texto, sem problemas. Peço apenas que não divulgue meu nome. E fico no aguardo para debatermos o assunto. Fique a vontade para discordar e enriquecer. Apenas quis acrescentar informações de quem acompanha o basquete de perto.

*FRANCO JR. é pseudônimo de colaborador do blog que pediu para não ser identificado

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