Em nome do Pai

botafogo torcedor

Por DAVI MIRANDA*

Nelson era um torcedor fanático, desses que vivem o futebol. Como um bom botafoguense, também era supersticioso: inventava mandingas, fazia mungangas e cultivava um monte de manias, todas com o intuito de dar aquela forcinha extra ao alvinegro.

Para se ter uma ideia de sua fixação pelo clube, em sua casa a maioria dos móveis é preta e branca; sua mulher, a contragosto, teve que preparar um enxoval temático e seu cachorro se chama Biriba, assim como os dois últimos que teve.

Toda essa paixão foi herdada do pai, seu Lira, que enquanto viveu fez questão de lhe mostrar o quanto o Botafogo é grandioso, vitorioso e inspirador. Passaram grandes momentos juntos e, inclusive, a frequente ida ao Maracanã fez parte de sua criação.

Há tempos atrás, Glorinha, sua mulher, engravidou, e Nelson prometeu a si mesmo transmitir ao seu filho o amor pelo clube de General Severiano. Foi além, fez disso um projeto de vida.

Deu-lhe o nome de Jair, e não havia prazer maior do que chamá-lo de Jairzinho. Não coube de alegria quando viu o filho sair da maternidade enrolado em uma manta que tinha uma enorme estrela branca.

Mesmo ainda muito pequeno, sempre que podia, Nelson reforçava a ideia do Botafogo para o menino.

Aos dois anos, Jairzinho já dizia o que o pai lhe pedia, muito mais por ainda não dominar a fala do que por iniciativa própria e, nos bares, quando juntos, não havia alegria maior para Nelson do que perguntar ao filho qual era seu time, só para ouvi-lo dizer, mesmo que de maneira enrolada, “Fogo”.

Jairzinho cresceu e logo começaram a frequentar estádios juntos. Esse era o grande prazer de seu pai, sua maior realização, e nesse ritmo os anos se passaram. Hoje Jair é um homem feito, com mais barba que seu pai e seu avô sonharam ter um dia.
Juliana, sua mulher, está grávida.

Nelson morreu faz uns dois anos, e seu caixão desceu enrolado em uma bandeira alvinegra. Provavelmente morreu feliz, pois ainda viu seu time ganhar um último estadual.

E partiu sem saber que Jair, seu filho, não gosta do Botafogo, e mais, detesta futebol, mas nunca teve coragem de lhe dizer. Tudo aquilo que o filho havia aturado fora por respeito e, principalmente, para não frustrar sua felicidade. Jair, no fundo, sempre torcera por seu pai.

*DAVID MIRANDA escreve no blog “Pitacos Ácidos”

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