Massacres expõem o declínio do futebol brasileiro
Nos próximos meses, o treinador da Seleção Brasileira, Luis Felipe Scolari, será massacrado não apenas pela mídia, como também pelo público, que já o aponta, junto com o jogador Fred, como os “vilões” principais de um vexame, que, na verdade, pouco tem a ver com eles, e que já era ensaiado há muito tempo.
Muitos foram os sinais, que, por ufanismo, no caso de parte da imprensa, malandragem, pelos cartolas, e alguma inocência popular, não foram levados em consideração como deveriam.
Há tempos nossa geração de jogadores é absolutamente medíocre, assim como a gestão de nossos clubes, federações e confederações, que, quando não tomadas pela incompetência, servem a interesses que nada tem a ver com o esporte.
Pode-se, e deve-se, questionar a competência de Scolari no exercício de sua função no Mundial – o próprio confessou ter cometido equívocos – mas a conta não deve ultrapassar a realidade dos fatos, ou da falta de ovos para se realizar um bom omelete.
Excetuando-se Neymar, quem pode ser tratado como unanimidade na Seleção Brasileira ?
Quem Felipão poderia ter convocado no lugar dos que foram, e que poderiam ser tratados como salvadores da Pátria ?
Falar em Ronaldinho, Kaká e Luis Fabiano, ou noutros tantos, que um dia foram bons jogadores, mas hoje – aliás, desde Copas passadas – demonstram ser tão comuns quanto os que disputaram o Mundial 2014, tanto que sequer são mencionados a integrar equipes de bom nível do futebol mundial, é atestado de indigência mental ou falta de conhecimento esportivo.
Há quanto tempo, por exemplo, as equipes brasileiras, reféns de bandidos no poder e de esquemas de empresários desde as categorias de base, não apresentam uma equipe digna de ser tratada como inesquecível, ou, ao menos, razoável ?
As últimas equipes tratadas como “grandes” pela mídia nacional, sem nunca, de fato, terem sido, dependiam de lampejos de um jogador diferenciado, no caso o Santos, ou da capacidade de alguns treinadores de entender o quão ridículos eram seus elencos, tratando, então, de criar sistemas defensivos que, de alguma maneira, pudessem ser mais eficazes do que os ataques adversários.
Os exemplos são claros:
Nas duas goleadas sofridas pelo Santos contra o Barcelona, 4 a 0 e 8 a 0, o Peixe acreditou, pela sua rica história e por ter Neymar no elenco, que poderia jogar de igual para igual com qualquer equipe do mundo, assim como, a Seleção Brasileira de Felipão, que, por estar disputando uma Copa do Mundo no Brasil, partiu pelo mesmo caminho, o de colocar o que já se viveu, anteriormente, na frente da realidade, e, em vez de jogar precavida contra uma Alemanha comparável ao Barça de Guardiola, atacou-a sem a menor chance de obter êxito na empreitada.
Ambos dançaram, de maneira vergonhosa, mas absolutamente previsível.
Os placares dilatados demonstram, com exatidão, o nível atual do futebol brasileiro, mascarado, anos atrás, por três conquistas mundiais, de São Paulo, Internacional e Corinthians, todas na retranca, contra adversários mais fortes, que só foram possíveis porque entraram em campo cientes da sua inferioridade, e porque o futebol é o único esporte em que o pior pode vencer, por vezes, o muito melhor.
Se o Brasil, ontem, por exemplo, tivesse saído na frente do marcador, e recuado a equipe para jogar nos contragolpes, mesmo sendo infinitamente inferior aos alemães, poderia também ter saído com a vitória.
Resultado que seria justo, mas não refletiria a real condição do futebol apresentado nos dois países.
A grande questão, daqui por diante, é encarar a mudança que se faz necessária em todos os setores de nossa gestão esportiva, na mentalidade de jogadores, de pais de atletas, da mídia e também na percepção do torcedor.
Exaltar dirigentes ladrões porque conquistaram títulos, sem observar o mal ocasionado no alicerce de seus clubes ou federações é algo que precisa ser observado, e alterado, imediatamente.
O Brasil precisa de profissionalismo, de gestão a longo prazo nas categorias de base, que deve ser mantidas, gerida e servir tão somente aos clubes, não mais a desejos de empresários ou dirigentes.
Se o massacre do Mineirão não servir para realizar as necessárias mudanças na gestão do futebol brasileiro, em breve, o país, que se diz do futebol, viverá apenas de história, e disputará as próximas Copas do Mundo – as que conseguir se classificar – como coadjuvante de luxo, assim como ocorre com o Uruguai, para quem todo mundo torce, mesmo sabendo que somente o acaso poderá transformar em conquista os empurrões dados pela simpatia popular.
Com relação a Seleção de 2014, deve-se sim cobrar, na medida certa, jogadores e comissão técnica, mas há de se haver justiça, também, para qualifica-los como vítimas de um sistema falido, que apequena o futebol brasileiro, após décadas de gestões corruptas e equivocadas que assolam a CBF e demais setores do esporte nacional.

