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Palavra do Magrão

Como água e óleo

http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&a2=5&i=5756

Por SÓCRATES

Retorno a esse tema para que possamos provocar e despertar uma consciência ainda não muito clara aos olhares atentos de quem gira em torno do esporte de alto rendimento.

Como sabemos, estamos tratando de atletas que, bem ou mal, serviram e ainda servem como referência a tantos que os acompanharam durante a vida profissional. Servir-se da imensa carga de substância não é unicamente uma atitude sensata, mas é também muito mais que isso. É algo fundamental se quisermos elevar a autoestima de uma nação através do contato desses ídolos com o povo que os escolheu. Todos agradecerão.

Este não é, contudo, um problema exclusivamente do homem brasileiro. Nós encontraremos nas mais distintas culturas a mesma problemática envolvendo praticamente todos os esportistas cuja carreira, em determinado instante, foi curta e intensa: a dor da ausência de espaço para manter-se na mesma posição. A juventude termina e, com ela, as forças para manter a produtividade de antes.

Com isso, aqueles que vêm depois em busca de oportunidades aproveitam o vácuo deixado pelos antigos ídolos e ocupam impiedosamente o lugar desses. Mesmo o que decide se antecipar ao destino e se afasta antes que seja afastado sofre com a falta de contato com aquilo que sempre foi a sua vida e competência. Além do vazio social decorrente.

É o que provavelmente – excluída a questão financeira – acontece com Michael Schumacher, o maior de todos os pilotos em tempos recentes. Volta e meia, como no acidente com Felipe Massa e agora devido à especulação que cresce a olhos vistos de que voltará a competir pela Mercedes, Schumacher tende a aceitar a ideia de que estar afastado não é nada satisfatório. Muito pelo contrário, significa sofrimento e carência.

Não me surpreenderia, portanto, caso se decidisse pela volta e se sujeitasse a todo tipo de sacrifício para entrar em forma outra vez e poder lutar de igual para igual com os mais jovens. Jamais uma tarefa fácil, mas absolutamente crível para viabilizar o resgate de algo precioso e fundamental, aquele sentimento gerador de felicidade e completude, ainda que temporário e dependente de uma esperança geralmente vã, dada a complexidade da empreitada.

Seria um sonho ocorrer o resultado esperado – algo raro e improvável – como o que presenteou o sérvio Dejan Pet-kovic do Flamengo nesta temporada. Ele que certamente já pensava em aposentadoria há algum tempo.

Pelo mesmo motivo, ainda que não tenha abandonado os gramados, Ronaldinho Gaúcho, um dos mais brilhantes atletas brasileiros de sua geração, declarou esta semana esperar uma convocação para a próxima Copa do Mundo, mesmo que não tenha sido lembrado, ou até por isso, pelo treinador nas últimas convocações.

Quem o vê jogar hoje, no entanto, nem de longe pode imaginar o que ele já jogou e, pior, o que ainda poderá jogar; só que aparentemente não quer. Entra em campo para demarcar território como um grileiro qualquer em terras de outrem. E por ali fica o tempo todo, sem esboçar uma única investida em espaços estranhos, como se estes não existissem ou lhe causassem alergias respiratórias intratáveis.

Com a bola nos pés anda fazendo das suas: excelentes lançamentos, caso algum dos seus companheiros resolva se mexer para recebê-los. Se não, insiste em dribles corriqueiros, quase sempre para o lado, passes para trás ou em alçar bolas para a área como se estivesse enfadado da rotina dos jogadores de alto nível que ele ainda poderia ser, caso quisesse.

Com essa postura acomodada, ou melhor, resignada, creio que na verdade ele não quer e faz uma força imensurável para não ser convidado a nunca mais jogar em time nenhum, muito menos na Seleção Brasileira. Difícil entender, até pelos exemplos descritos acima, mas é isso que eu e boa parte da humanidade vemos o tempo todo em que entra em campo com a camiseta do Milan.

É uma pena. Por outro lado, essa situação nos dá a exata noção do que a falta de ambição e de perspectiva pode provocar em um ser humano talentoso como ele. Exemplos díspares como esses poderiam nos oferecer a chance de responder algumas questões que, no âmbito profissional, frequentemente nos incomodam.

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