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Palavra do Magrão

Vida virtual, consequências reais

Por SÓCRATES

http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&a2=5&i=4668

A vida que o sucesso e a popularidade nos oferecem é cheia de particularidades interessantes. Somos tratados como indivíduos especiais e únicos, e os privilégios são espantosos. Isso geralmente nos encanta de tal forma que se torna difícil manter a razão. Mas não se pode perdê-la em hipótese alguma, pois as consequências são imprevisíveis. Durante o auge da popularidade como jogador de futebol, eu era convidado de uma das mais elegantes casas noturnas de São Paulo. De vez em quando, até por curiosidade para conhecer pessoas mais exigentes e sofisticadas no trato social, eu aparecia por lá. Em pouco tempo, já conhecia todos que ali trabalhavam e me sentia em casa ainda que os tipos que a frequentavam não fossem exatamente aqueles que me fascinavam (ou fascinam) conviver. Mas havia suas atrações. Gente bonita, algumas boas cabeças e shows musicais de qualidade.

Isso perdurou por longos anos até que um dia recebi pela primeira vez uma conta a pagar. Nesse momento, ficou claro para mim que o personagem que encarnava já não era tão interessante para aquela casa e nunca mais retornei. Até porque aquele não era um local de minha eleição, além de ser extremamente dispendioso para as minhas posses. Não tive nenhum problema com a repentina autoexclusão de um ambiente que de alguma forma fez parte da minha vida por algum tempo, porque sempre tive claro que o convidado em questão não era o ser humano que sou e, sim, a personalidade que todos conheciam dos campos de futebol, da televisão, dos jornais e das revistas. Um personagem que um dia morreria – como de fato aconteceu. Reconhecer as diferenças fundamentais entre o que é real e virtual nessas histórias que envolvem atividades populares é de fundamental importância para a sobrevida posterior de quem atinge esse estágio.

Atores, cantores, jogadores de futebol e outros são como entidades tratadas de acordo com a sua influência dentro da sociedade. Quanto mais aparecem, mais são valorizados. Quando por acaso desaparecem da mídia por qualquer motivo, tornam-se quase desconhecidos – o que, geralmente, provoca imensos traumas na personalidade desses indivíduos, caso não tenham a consciência de que muita coisa ali jamais foi real. Todos passam por isso, mas muito pior é o caso dos esportistas, que inexoravelmente devem deixar a sua atividade por culpa da gradativa incapacidade física que limita as suas potencialidades. O desemprego é um dos grandes males dos tempos modernos e uma das maiores preocupações das sociedades contemporâneas, mas muito mais doloroso que perder o emprego é perder a profissão. O desempregado tem uma qualificação que o credencia a retornar mais cedo ou mais tarde ao mercado de trabalho. Porém, no caso do jogador de futebol, não há alternativa: tem de procurar uma nova profissão para que possa se reinserir na mesma sociedade.

Já não tão jovem e com responsabilidades sociais definidas, nunca é fácil recomeçar. Principalmente no caso dos brasileiros, que quase sempre não possuem uma formação adequada, muito menos qualificação em outra área. Eu, mesmo tendo me preparado exaustivamente para esse momento, tendo um diploma de médico e uma previdência relativamente boa, tive muitos problemas. É que a rotina de trabalho, de laços familiares e de todo o resto tem necessariamente de ser modificada. Tudo: desde o horário de dormir e levantar até o dia de lazer. Além, é claro, de começar tudo de novo para conquistar um espaço em um mercado absolutamente competitivo. Consegui sobreviver, mas quantos permanecem ainda em busca de uma resposta para suas necessidades? É muito triste perceber que tantos que um dia foram ídolos de multidões agora estão em situação precária.  

Não sei exatamente como Romário preparou-se para o final de sua brilhante e bem-sucedida carreira, porém, os episódios tornados públicos nos últimos dias fazem-nos acreditar que seus problemas ainda persistem e não são poucos ou simples de resolver. Muitos não entendem como alguém – se é que tudo o que foi divulgado faz parte da realidade – que tenha tido a oportunidade de usufruir algo tão especial acabe jogando por terra boa parte do que conquistou. No entanto, é plausível que essas pessoas compreendam que nem sempre as soluções encontradas em determinado instante (inclusive judicialmente) são compatíveis com as distorções provocadas pela limitada extensão dessa carreira profissional

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3 comentários sobre “Palavra do Magrão

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