A queda de um cartola

Por SÓCRATES

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Quando o cerco se aproximou em demasia, como nas CPIs do Congresso Nacional há alguns anos, vários cartolas do nosso futebol pensaram seriamente em se afastar dos negócios como uma forma de distrair a atenção e, quem sabe, escapar das garras da Justiça. Outros, como é o caso do nosso personagem principal, apoiaram-se em estruturas políticas para continuar com suas peripécias administrativas. A maioria permaneceu onde estava, é claro, pois jamais se imaginou distante da galinha dos ovos de ouro em que se transformou o futebol brasileiro.

Onde encontrariam oportunidades semelhantes em qualquer outro ramo de atividade e onde possuiriam tamanho poder? Em lugar nenhum. Principalmente porque não produzem excelência em nada do que fazem. Mas um deles, velho conhecido de todos, depois de quase 20 anos de poder absoluto, está se despedindo do trono. Sua trajetória foi fulminante e sempre causou surpresa até para os mais chegados. Principalmente os que com ele conviveram desde a sua infância e que, portanto, conhecem bem a sua história. Menino, ele sonhava com uma vida bastante simples. Melhor do que aquela que levava, é verdade, mas bastava muito pouco para que fosse proporcional ao seu sonho. Nos primórdios de sua vida, pouco se destacava dos companheiros. Na escola, não conseguia acompanhar o ritmo ditado pelo professores. E olhem que não era nada de extraordinário. Apenas tinha dificuldades para assimilar as informações recebidas. Já na adolescência se virava como podia para ajudar no orçamento familiar. Parecia, naquele momento, que tudo que imaginara jamais aconteceria. Estava muito distante dos seus objetivos e resolveu dar uma guinada em sua vida, porém, ainda não sabia como.

Saiu de casa em busca do sonho maior como um migrante qualquer, com um currículo sem muitas qualificações, que, mesmo assim, não seria um limitador para suas ambições. Sua única riqueza, reconhecia, era o de ser mestre em atrair ouvintes para suas prosas e criar um leque de relacionamentos que lhe pudesse permitir portas abertas mesmo sem um ofício definido. Conseguiu, através de amigos, ser aceito em um posto inferior de uma estrutura esportiva, na qual hibernou por muitos anos, com o indisfarçável intuito de conhecer em profundidade o negócio da empresa. Sentia que era um produto excepcional e que as pessoas que mantinham cargos de direção estavam mais interessadas em utilizá-los como degraus para outros vôos ou estavam prestes a se aposentar. Passou então a trabalhar para galgar até a diretoria, sem necessariamente passar pelo dissabor de estagiar na supervisão, o que lhe exigiria muito mais tempo do que gostaria.

Trabalhou nos bastidores, conquistou adeptos, fez-se candidato e chegou à presidência. A partir daí aconteceu uma reviravolta em sua vida. Com o poder adquirido, desfilava com desenvoltura em terrenos pouco visitados. Em alguns anos, pôde centralizar todas as decisões de interesse dos filiados. Isso lhe permitia negociações cada vez mais rentáveis, não necessariamente lícitas, sem que nunca houvesse controle por parte dos demais membros. Contratos de exploração geravam pequenos desvios, chamados de comissões, que repousavam agora em algumas contas numeradas em paraísos distantes.

Contratos de comercialização interna eram fechados por um valor abaixo dos de mercado, desde que uma parte também fosse parar em seus cofres.

Na distribuição antecipada de dividendos, exigia, escancaradamente, uma recompensa. Ninguém jamais reclamava, porque sua capacidade de retaliação era temida. E assim foi amealhando um “respeitável” patrimônio que assustava até seus parceiros. Um prodígio, afirmavam.

Mas, como o ilícito nem sempre compensa, errou inesperadamente em dois pequenos detalhes: em mais de uma de suas aventuras, esqueceu-se de contabilizá-las e jamais se preocupou em tornar visível uma fonte qualquer para seus recursos. Eis que, através de uma série de denúncias contra a sua administração, descobre-se toda sorte de falcatruas que há anos realizava. De cabeça baixa, acaba derrotado e expulso do imponente salão em que vivera nas últimas décadas e onde despachava diariamente.

Apesar de tudo que conquistara materialmente, neste momento percebe que aqueles que o cercavam estavam interessados apenas nas facilidades que ele lhes oferecia e que, nos dias futuros, teria de lutar sozinho para tentar provar, inutilmente, a sua inculpabilidade. E assim só lhe sobrara a sofrida e inesperada solidão.

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2 Comentários

  1. Socrates, seria um excelente presidente para o Corinthians!!!
    Mas, como ele é um homem de bem, e de conduta ilibada, nunca aceitaria fazer barganhas com os oportunistas cartolas de plantão!!

  2. A vida teria muito mais sentido se o que aconteceu com essa figura ultimamente melancólica fosse regra básica para todos aqueles que usassem de forma nefasta o poder.

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