Havelange, Ricardo Teixeira e a Máfia (Imperdível!)

Por Mino Carta


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A explicação de Totó Riina


Liguei para Totó Riina, para uma entrevista telefônica. O ex-Capo di Tutti i Capi da Mafia siciliana está preso há quinze anos em presídio de segurança máxima. Mas que são muralhas intransponíveis e celas blindadas para um repórter solerte, para um perdigueiro da informação? Pretendia eu uma entrevista, como se diz, humana, uma espécie de tardio, porém profundo, exame de consciência. Com voz que parece deslizar sobre lixa, Totó confessou de saída não alimentar maiores remorsos e cultivar uma forma de inveja, que define como “inócua”. Segue-se o seguinte diálogo, devidamente gravado.


Eu: “Inveja? Do quê, de quem?”


Ele: “De João Havelange”.


“Mas por quê?”


Sua risada, apenas esboçada, é um marulhar. “Tivesse conseguido ser um Havelange em lugar de Riina, neste momento estaria curtindo a velhice em santa paz, com muita grana no cofre e ainda muito poder, sem contar o respeito das autoridades. Já imaginou o que seria o Estádio Totó Riina? A melhor praça de esportes de Palermo”.


“Mas se é assim, porque não ter inveja, sei lá, de Carlos Slim, de Murdoch?”


“Não acho graça. Claro que para virar um Slim, ou um Murdoch, nem todos os comportamentos devem ser de absoluta lisura. Desculpe, no seu gênero, Havelange é imbatível”.


“Agora, convenhamos, Havelange não é um chefe mafioso”.


Ele gargalha, soa a prenúncio de terremoto aos pés do Etna. “Esta é muito boa, um primor. Como é, Havelange não é um boss mafioso?” Fica engasgado de tanto rir.


Caio das nuvens. “Um herói do esporte bretão”.


Receio que Totó vá explodir. Murmuro: “Pelo menos é o que me dizem”.


“Esporte bretão? Pelo amor de Deus… Havelange montou na Fifa algo infinitamente melhor, no sentido de mais eficaz, do que a máfia, ou da Camorra ou da N’dragheta, e passou anos para fazer de Joseph Blatter seu herdeiro. O que este pessoal faz para se perpetuar no comando de uma operação bilionária, trilionária, não está escrito. E para tornar o futebol o cenário de negócios imundos. Olha, como repórter, você é ingênuo demais”.


“Sinto muito, mas até o presidente Lula vai à Suíça, e os candidatos a candidatos à presidência do Brasil em 2010, e dona Marta de vermelho, e Paulo Coelho, gênio da literatura, e todos fazem questão de abraçar o tal Blatter, e o Ricardo Teixeira. Não posso imaginar que eles também sejam ingênuos”.


“E quem disse que são? Você é que é. Veja o que teria acontecido comigo se tivesse sido um Havelange, ainda ganharia as mesuras das autoridades. Aliás, esse Ricardo Teixeira…”


“Que tem o Ricardo Teixeira?”


“Bem, até os cactos sicilianos sabem que chefia a família brasileira, é o boss local. Veja, eu ficava em Corleone, mas podia confiar no boss de Montelepre. Não sei se me explico”.


Achei que se explicava.

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