Palavra do Magrão

Da Carta Capital


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Clube dos Treze


por Sócrates


Se os dirigentes esportivos não conseguem controlar a entidade que criaram para defender seus direitos, como é que poderiam gerir adequadamente um clube?



 


Sócrates


Quando se imaginou a criação do chamado Clube dos Treze, o objetivo era organizar uma liga independente de futebol, para conquistar uma espécie de alforria da tutela da Confederação Brasileira de Futebol e, assim, obter autonomia para que os signatários, os maiores clubes do País, pudessem livremente decidir sobre o futuro. Eu estava muito próximo, já que havia retornado da Itália e jogava no Flamengo, cujo presidente era o maior entusiasta do projeto. Márcio Braga possuía um bom cacife, pois pouco tempo antes havia levado o Rubro-negro ao título mundial interclubes e era considerado um líder jovem e moderno, que sonhava com o futebol brasileiro sendo administrado como nas sociedades mais evoluídas.

Havia ali um clima de revolução que envolveu todos que, de uma forma ou de outra, percebiam que a gestão do esporte carecia, já naquela época, de mais profissionalismo e competência. Caso ocorresse o choque esperado, se evitaria o que hoje vemos como realidade: muitos se locupletando e enriquecendo sem nenhum compromisso com o futebol. Nesse período, tive algumas conversas com Márcio sobre o projeto. Uma das perguntas que fiz foi se ele tinha idéia de até que ponto os presidentes dos clubes tinham como compromisso o enfrentamento com a Confederação. Para transformar uma estrutura é necessário coragem para derrubar as resistências que aparecem e eu não sentia naquele grupo disposição suficiente para tal, o que fatalmente abortaria o processo.

Bem, o projeto não morreu, mas mudou de rumo e o Clube dos Treze tornou-se não só um apêndice da Confederação como também da Rede Globo, que desde sempre consegue sensibilizar, ou seja lá o que for, seus dirigentes contra o assédio das emissoras concorrentes. Isso demonstra que a entidade que nascera com um viés transformador jamais foi independente e muito menos conseguiu modificar o que quer que seja na gestão do futebol, já que os interesses defendidos continuam provincianos demais. O mais interessante é que dentro da entidade há uma casta que tomou o poder de tal forma que, mesmo afastada há muito de seus clubes de origem, continua a dar as cartas, várias vezes contrariando o interesse de alguns ou de todos os seus membros.

Se os nossos dirigentes esportivos não conseguem organizar nem controlar a entidade de classe que criaram para defender seus direitos, como é que poderiam gerir adequadamente uma sociedade complexa e diversificada como uma associação esportiva? Que o diga o Corinthians, um dos mais importantes sócios desse clube extremamente fechado. Corinthians, aliás, que pelo jeito terá dificuldades de manter alguma influência nesse grupo pela forma como a nova direção se colocou em sua primeira participação no núcleo de poder da organização.

O novo representante corintiano chegou muito timidamente à mesa de negociação, com dificuldades de se colocar adequadamente e, muito provavelmente, será engolido pelas velhas raposas que lá existem. Hoje há um processo de cisão no grupo decisório, em virtude de algumas posições díspares relativas aos caminhos que devem trilhar quanto aos direitos de tevê. Por isso, seria necessário que o presidente alvinegro impusesse o ponto de vista e os interesses da sua instituição e não ficasse apenas assistindo ao debate como um tucano sem saber para que lado optar.

É claro que é sempre desconfortável chegar a uma confraria antiga sem maiores conhecimentos acerca do seu funcionamento. Porém, com o respaldo que possui, de ter às costas a segunda maior torcida do País, é desperdício e falta de habilidade política não saber utilizar tamanho cacife.

Os próximos capítulos dos debates internos nesse clube tendem a ser interessantes, pois o fato de alguns dos participantes terem se ausentado da última reunião decisória ao se sentirem minoritários e impotentes diz muito do atual ambiente no seio da organização. A dissidência ainda se mostra bem frágil e não conseguiu chegar nem perto da maioria simples, mas a tendência é de que as divergências corroam as já desgastadas relações entre os membros. De um lado estão os que pretendem uma gestão, imagino, proativa e independente e, do outro, os conservadores de plantão que não querem largar o poder e que claramente se colocam a favor dos que se acham donos do futebol brasileiro e que são mais do que conhecidos do grande público. Uma luta inglória, mas válida, para os primeiros. 
 

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