Do blog do Citadini
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Consenso ou disputa
Por Roque Citadini
O Corinthians encontra-se em fase eleitoral, dando ensejo à discussão sobre qual o melhor, mais fácil e democrático método para escolha de sua nova direção.
É inegável que lançar várias chapas na disputa apresenta-se como o mais democrático caminho para resolver a escolha de dirigentes. Esta é uma histórica solução clássica e que tem sido aplicada em todo o mundo. Contra ela há o fato de acirrar a briga entre concorrentes e, no caso específico do Corinthians, sobressai ainda que a decisão será de um Conselho Deliberativo, com conhecida grande volatilidade. Ou seja, muda de opinião com grande facilidade em votações.
Vejam-se os últimos exemplos de decisões desse Conselho: com expressiva maioria aprovou a última parceria para, dois anos depois, unanimemente decidir pelo encerramento da mesma; elegeu por esmagadora maioria o presidente Dualib para, um ano depois, afastá-lo por unanimidade.
Nada disso, no entanto, retira o mérito de a disputa entre vários candidatos ser um instrumento democrático e positivo de decisão.
Quanto à candidatura de consenso, esta também, se consolidada sobre um programa consistente, que reúna as várias facções em disputa, também pode ser um instrumento democrático. Requer, no entanto, alguns requisitos para ser a melhor opção tanto para um País como para um Clube de Futebol, como o nosso. A candidatura consensual só surge em um cenário: quando a situação está muito ruim e o trabalho de reconstrução só pode ser realizado por ampla e sólida maioria.
Adotada em sitação de crise, só pode ser construída se estiver sustentada por um programa de mudanças, e em um quadro em que os principais contendores se desapeguem dos cargos em disputa.
Não se trata de buscar uma fórmula não democrática, mas sim de construir um quadro superior de consenso, sobre os problemas e suas soluções. Temos diversos exemplos de países, entidades, clubes, que, lançados em dramáticas situações, puderam debater e construir programas de recuperação e reconstrução, dentro de um projeto consensual.
Apenas para lembrar, cito o exemplo dramático vivido pela Inglaterra que, numa sucessão de péssimos acontecimentos, viu-se isolada na Segunda Guerra, diante de uma Alemanha quase vencedora, dona de quase toda a Europa e ameaçando invadir a Ilha, com segurança precária e praticamente incapaz de barrar o avanço alemão. O terrível quadro exigiu uma composição entre adversários históricos, colocando no mesmo gabinete Churchill, conservador nobre e reacionário, e do outro lado, Atlee, líder trabalhista e inimigo histórico dos conservadores, ligado a sindicatos que pregavam uma revolução quase bolchevique. Aquela aliança permitiu à Inglaterra resistir, tendo as duas alas contribuído consensualmente de forma magnífica para a virada na Guerra. Inclusive os trabalhistas, que controlavam sindicatos e trabalhadores, foram os responsáveis pelo rearmamento inglês em tão difícil hora.
Passando para os dias atuais e para nosso Clube podemos dizer – usando a mesma palavra – que nossa situação é dramática, vivendo o Corinthians um período de desconstrução poucas vezes visto em sua história.
É legítimo que cada grupo apresente seus candidatos. Eu mesmo estou envolvido com a candidatura de Paulo Garcia, como outros, legitimamente, trabalham por outros nomes. Nunca pensei, no entanto, que o simples lançamento de candidaturas fosse resolver problemas do Clube, tanto que, neste blog, reiteradas vezes, tenho sido instado a lançar-me como um candidato, como se essa fosse a pedra mágica que mudaria a situação do Clube.
Mas é inegável que, ao lado das candidaturas particulares de cada um, é relevante que se busque construir uma alternativa consensual, baseada num programa de reconstrução e modernização de nosso Clube. Para isso estão aí as duas situações que podem ajudar: a primeira, a caótica situação do Corinthians, que demanda rápida e inevitável solução; a segunda, o desprendimento dos candidatos que não estão meramente correndo atrás de postos.
Veremos, nos próximos dias, se dentro das grandes dificuldades vividas é possível construir uma saída que dê sólida maioria para que se faça a necessária reforma estrutural no Corinthians.
Vamos torcer e trabalhar, desejando que o caminho que venha a ser escolhido seja o melhor para o Clube.

