Entrevista com Roque Citadini
Por André Kfouri
Antonio Roque Citadini é presidente do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, do qual é conselheiro vitalício.
Também é presidente do Conselho de Orientação do Corinthians.
Citadini foi contra a assinatura do contrato de parceria entre o Corinthians e a MSI.
Ao contrário de muitos espertinhos que eram contra e depois “aderiram ao movimento”, ou eram favoráveis e depois mudaram de idéia, Citadini manteve sua posição desde dezembro de 2004.
Talvez por isso ele não seja um corinthiano envergonhado.
A seguir, nossa conversa por telefone:
BLOGOL – Após a recente divulgação das escutas telefônicas feitas pela Polícia Federal, como está o processo de sucessão de Alberto Dualib?
ANTONIO ROQUE CITADINI – Na verdade, não está. Deixe-me explicar: o clube está tentando se recuperar. Há um grupo forte que quer ter um candidato que pense na reconstrução do Corinthians. Tem que ser uma coisa bem costurada com as melhores cabeças. Recentemente tivemos uma reunião com desembargadores, empresários. Do outro lado, está o grupo do Andrés (Sanchez, candidato a presidente, flagrado no relatório da Polícia Federal combinando com Alberto Dualib e Nesi Curi o que diriam em depoimento sobre os negócios entre o Corinthians e a MSI), que já está meio incomodado. O ônus de ter apoiado a parceria ficou muito pesado para ele. Eu acho que isso inviabiliza a candidatura dele. Eu acho complicado definir candidatos agora. É preciso definir, primeiro, a eleição.
BLOGOL – As escutas telefônicas prejudicaram muito o Andrés Sanchez?
ARC – As gravações prejudicam, sim. Mas o que mais prejudica é o seguinte: como é que nós vamos ter no clube um grupo tão ligado à MSI, sendo que a MSI está sendo investigada pela polícia, denunciada pelo Ministério Público? Como é que vai ter um presidente que se dizia amigo do Kia (Joorabchian, presidente da MSI, com pedido de prisão preventiva decretado)? Como vamos escolher para presidente alguém que apoiava o Kia, que dizia que ele era ótimo? Fica complicado.
BLOGOL – Ele percebeu isso?
ARC – Eu acho que sim. Ele está nítidamente abalado.
BLOGOL – Até onde, na sua opinião, irão as punições para os envolvidos? Alguém irá para a cadeia?
ARC – Eu acho que corre-se sério risco. Na verdade, o risco é alguém ser pego como bode-expiatório. É duro. O Dualib, tem uma fita (das escutas telefônicas) por dia pegando no pé dele. O quadro jurídico dele é perigosíssimo. Essas gravações são de um nível de comprometimento terrível. Numa situação mais branda, seria diferente. Mas do jeito que está certamente haverá condenações. Essas notas frias que foram apreendidas no clube também são muito graves.
BLOGOL – Você fica constrangido quando as pessoas dizem que você fez parte da administração do Dualib?
ARC – Eu não. Como eu não mudo o meu discurso, sempre falei as mesmas coisas, não preciso dar explicações. Tudo o que eu falei sobre o Dualib está nos jornais, foi divulgado. O que eu falo você pode publicar. Sempre disse em quais pontos eu divergia do Dualib e em quais não divergia. Eu não tenho esse constrangimento.
BLOGOL – Quanto tempo você imagina que o clube levará para se recuperar?
ARC – Olha, o clube tem uma oportunidade de ouro de fazer reformas que nunca fez. Isso é inédito. Até porque vamos ter uma transformação de geração muito grande no Corinthians. Tem uma geração de dirigentes muito antiga, do tempo de Vicente Matheus e Wadih Helu, que está indo embora. A oportunidade é única. Escolhendo uma direção provisória, o clube rapidamente se equilibra.
BLOGOL – O mandato de Dualib vai até janeiro de 2009 certo?
ARC – Isso.
BLOGOL – E aí tem de haver eleição. Quem vota nesta eleição?
ARC – Há uma discussão dentro do clube, mas entende-se que na próxima eleição vota o Conselho Deliberativo, apenas.
BLOGOL – Neste período todo, e específicamente nesta semana que passou, você teve vergonha de ser corinthiano?
ARC – Não. Eu tive orgulho. Garanto a você que, em outro clube, não haveria tanta resistência a uma parceria como essa. O orgulho vem do fato de haver tanta gente que resistiu. Nós estamos sofrendo, mas estamos resistindo. O clube está mostrando vida. Infelizmente, essa bandidagem escolheu o Corinthians para entrar aqui no Brasil e está nos dando todo esse trabalho. Mas se fosse em outro clube, estariam nadando de braçadas numa hora dessas.
