Palavra do Magrão

Questão de prioridades




Os resultados esportivos de Cuba têm como razão principal o investimento no ser humano, na sua formação educacional e na ciência esportiva. Algo que tão cedo não veremos por aqui



Sócrates



Impressiona até os desavisados o poderio esportivo de Cuba. A pequena ilha do Caribe possui em torno de 11 milhões de habitantes, 20 vezes menos que o Brasil, mas mesmo assim consegue resultados extraordinários em quase todos os esportes. Acredito que todos conheçam a razão para tal, fruto de uma política pública que promove maciçamente a aproximação de todos os cidadãos com a atividade física e com o esporte. As conseqüências são várias. Além de terem se tornado uma potência mundial na área esportiva, melhorias da saúde na população e capacitação educacional são os pontos mais relevantes.


Como temos origens raciais semelhantes, em boa parte dos casos seria razoável supor que, se o Brasil tivesse um programa adequado para o desporto nacional, teríamos condições de obter resultados muito melhores do que os cubanos. Somos uma nação mais rica, com vocação para os mais diversos esportes, não estamos sob bloqueio econômico, como os cubanos estão desde a revolução de 1959, e temos acesso ao que há de mais moderno em relação a equipamentos, além de sermos uma das nações que mais produzem e publicam ciência esportiva no mundo.


Nossas perspectivas são muito mais viáveis que as deles, que, no entanto, se mostram muito mais competentes e com resultados muito além dos que conseguimos historicamente. Para dar uma idéia das condições que os cubanos possuem para desenvolver o seu potencial, mostrarei o que lá vi quando visitei a Ilha, há alguns anos. Conhecer Cuba é um misto de vários estímulos que se misturam indefinidamente, criando sensações únicas. Por culpa do absurdo bloqueio que sofre desde a derrubada de Fulgencio Batista pelas forças populares, o país tem dificuldades de ter acesso a itens básicos para o bem-estar de sua população. Mesmo assim, continua em pé. Tudo lembra a época da revolução e não é diferente com as estruturas esportivas para treinamento de seus atletas.



Tive a oportunidade de conhecer o centro olímpico cubano, onde vivem e treinam os seus atletas de ponta. Estes nascem em torno da escola, onde são estimulados à prática desportiva, e é ali que se detectam quais têm talento suficiente para ser um competidor de alto rendimento. O segundo passo é desenvolver esses talentos em centros regionais, começando, assim, a evolução da pirâmide esportiva em que se apóia toda a organização. Mais tarde, já como expoentes, eles são encaminhados ao centro olímpico para o derradeiro passo da preparação para as diversas competições internacionais. Pois é, o centro olímpico existe tal qual era há 50 anos.


Como não é possível fazer investimentos em equipamentos esportivos como os que construímos ou reformamos para o Pan-Americano, utilizam-se os daquele tempo. Para dar uma idéia, a pista de atletismo é de terra batida e mesmo assim ali nasceram vários excepcionais campeões, por incrível que possa parecer. O mesmo acontece com a ginástica artística, o judô e todos os outros esportes. Os resultados obtidos por seus atletas têm como razão principal o investimento no ser humano, na sua formação educacional e na ciência esportiva. Algo que tão cedo não veremos por aqui.



Infelizmente, nós nunca nos preocupamos com a evolução dos humanos que formam esta nação. A não ser, é claro, os poucos de sempre. Quando se discute a opção por grandes obras para os Jogos que há pouco terminaram, não o fazemos pelos equipamentos em si. E sim por causa das prioridades e urgências que temos para encontrar o equilíbrio social. Para isso poderíamos utilizar os recursos disponíveis para multiplicar os espaços esportivos por todo o País. Desde, é claro, que não queiramos realizar obras faraônicas. É assim em todas as nações que privilegiam o ser humano, como França, Inglaterra etc., para falar das que têm um regime político diferente do cubano. Só depois é que pensaríamos em possuir arenas multiúso para os grandes eventos.


Em todos esses países o esporte é visto não como uma fábrica de medalhas e, sim, como uma ferramenta fundamental para o desenvolvimento do cidadão e, conseqüentemente, da nação. Para diminuir a importância desse processo, principalmente no caso cubano, muitos tentam desvalorizá-lo, citando uma suposta utilização dos seus resultados como uma forma de propaganda do regime. São os mesmos que apregoam aos quatro ventos as nossas mais de cem medalhas no Pan-Americano. Isto seria propaganda de quê?

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