Uma guerra nas alturas, por Sócrates

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Uma guerra nas alturas



por Sócrates

 

 

Sei o que é tentar algum tipo de esforço físico numa altitude como a de La Paz. Mas está claro que a decisão é meramente política, contra países com pouca tradição futebolística


Sócrates



Os jogos internacionais em locais com mais de 2,5 mil metros de altitude aparentemente estão proibidos. Tive várias experiências em ambientes com essas características. A primeira partida que fiz em La Paz, em seus quase 4 mil metros de altitude, foi nas Eliminatórias para a Copa de 1982. Como a série classificatória para o Mundial possuía um formato diferente daquele utilizado atualmente, pudemos ter um período de adaptação de um mês – 15 dias em Bogotá e mais 15 em Quito. As duas semanas na Colômbia foram as mais difíceis. Treinávamos em dois períodos e logo no segundo dia comecei a sentir que a minha resistência caíra não só para a carga normal de exercícios como também para as atividades do cotidiano, como subir escadas ou caminhar um pouco mais rápido que o de costume. Além disso, resfriei-me imediatamente, talvez pelo clima frio e seco que encontramos. Isso só piorou ainda mais o meu quadro físico. É importante salientar que já treinávamos há mais de 30 dias aqui no Brasil. Em condições naturais todos nós estávamos relativamente bem preparados. 


Lá, tudo era novidade. Durante os treinos tínhamos muitas vezes de interromper determinado exercício para respirar profundamente e recuperar o ritmo respiratório normal. As pernas pesavam demasiadamente por culpa da acidose metabólica. Os movimentos então se tornavam mais lentos e a precisão dos fundamentos, absolutamente prejudicada. Mesmo assim não havia moleza. Para piorar, como era praxe no planejamento do nosso técnico Telê Santana, quase todos os dias fazíamos um treinamento coletivo contra um adversário da casa. Mais parecia um jogo oficial, o que nos desgastava ainda mais. Em um desses, passei um grande susto. Com pouco mais de 20 minutos, comecei a sentir que a freqüência cardíaca se acelerara, acompanhada de uma incômoda sensação de esgotamento, que acabou por me tirar do treino. Deitei ao lado do campo para me recuperar, o que felizmente ocorreu em poucos minutos. Depois de uns dias de repouso, voltei a campo e nada mais senti, porém o receio demorou a desaparecer.


Depois dessas duas semanas, quando chegamos ao Equador já me sentia muito melhor e pude perceber que o rendimento havia voltado quase ao normal. A melhora no condicionamento já poderia ser medida pelos resultados que conseguimos nos amistosos: um empate com a Colômbia e uma goleada de 6 a 0 na capital equatoriana. Mais alguns dias e nos deslocamos até a Bolívia sem mais preocupações. Quando desembarcamos no aeroporto de La Paz (em El Alto), em uma altitude maior até que a cidade, tivemos a surpresa de perceber que nem mesmo aqueles 30 dias em Bogotá e Quito haviam nos preparado para o sufoco que é a capital boliviana. Muitos tiveram dores de cabeça horríveis, sangramento nasal e a eterna dificuldade em conseguir realizar as atividades mais rotineiras.



O jogo então foi uma tortura, a partir da metade do segundo tempo. Até ali, a maioria não demonstrava sinais de cansaço, mas, com o decorrer da partida, gradativamente fomos perdendo as nossas forças. Nos últimos 15 ou 20 minutos praticamente não conseguíamos sair do lugar. Estávamos completamente esgotados. Um verdadeiro suplício. Nunca mais estive por lá, mas, se voltar, provavelmente terei os mesmos sintomas, que não são nada agradáveis.


Evitar eventos esportivos nesses locais de difícil adaptação fisiológica não deixa de ser uma posição defensável, mas a forma como se deu é que é questionável.


Por isso, a dúvida acima colocada. É que a decisão da Fifa foi claramente um ato político e não correspondente às razões alegadas pela entidade. Poderia discutir aqui a visão científica da questão, mas ela me parece menor que o foco que gerou essa discussão. Se há algum risco de indivíduos despreparados jogarem em localidades com ar rarefeito como nas grandes altitudes, então por que apenas agora se toma a posição de evitá-las, já que as diversas conseqüências ao organismo humano são conhecidas pela ciência há algum tempo? E por que se definiu pelo limite de 2,5 mil metros e não 2 mil, por exemplo? Vejo aqui uma forma de discriminação contra nações de pouca tradição futebolística, como os andinos Bolívia, Equador, Peru e Colômbia. O México teve a sua capital preservada com a definição dessa altitude. Pela reação desses países poderemos ter sérios problemas diplomáticos, com conseqüências que poderão chegar até a ruptura. Vejamos quem ganhará essa queda-de-braço.

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