“Merchan” no jornalismo
Amigos internautas, fui alertado pelo leitor, Carlos Eduardo Gimenes de Matos, sobre uma reportagem da revista Carta Capital que trata sobre “Merchan” no jornalismo.
Não é recente, mas considerei que seu teor ainda continua atual e resolvi publicá-la.
Leiam e terão a noção exata do que está acontecendo atualmente no jornalisno brasileiro.
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A saída de Juca Kfouri da RedeTV!, por se recusar a fazer merchandising, expõe conceitos e práticas distintas no mundo do esporte.
É mais, bem mais, que uma dança das cadeiras no mundo do jornalismo esportivo na televisão. A mudança ocorrida nos últimos dias no comando de três dos principais programas do gênero, em São Paulo, é um reflexo evidente do atual estado de coisas do futebol brasileiro. É uma história de troca de gentilezas em público, intrigas e ameaças nos camarins, boatos espalhados pela internet, dossiês para a imprensa e processos judiciais.
O barraco em curso no mundo das mesas-redondas não difere muito do que vem ocorrendo em outros ambientes e em outras esferas, sempre opondo os que sonham modernizar aos que se aferram em manter tudo como está no esporte nacional.
Observe, apenas para citar outros dois episódios recentes deste drama, a eleição para a presidência do Vasco, realizada na terça-feira 4, com a vitória, entre socos e pontapés, de Eurico Miranda sobre Roberto Dinamite, e a confusão em que se vê enredado o ministro dos Esportes, Agnelo Queiroz, com o Comitê Olímpico Brasileiro, de Carlos Arthur Nuzman.
Esconde-se, por trás do troca-troca nos programas esportivos da tevê, discussões que, no fundo, envolvem o próprio futuro do futebol brasileiro. O aspecto mais evidente da trama é o debate em torno do papel do jornalista e do jornalismo esportivo num ambiente que, notoriamente, está caduco, para não dizer apodrecido.
É possível praticar jornalismo independente, de qualidade, exercendo simultaneamente a função de garoto-propaganda? É possível entrevistar um cartola retrógrado e ao mesmo tempo tecer loas a uma lâmina de barbear, sem alterar o tom e a entonação da voz?
Como noticiar que um determinado empresário foi preso por estelionato se minutos antes o jornalista deu um testemunho, no ar, a respeito das qualidades dos produtos da empresa que pertence ao acusado? Dá para acreditar nas informações de jornalistas que elogiam sapatos, latas de tintas, planos de saúde e palhas de aço com a mesma desenvoltura com que comentam os lances polêmicos da rodada?
Depois de quatro anos, Juca Kfouri deixou o Bola na Rede, da RedeTV!, por continuar se recusando a fazer anúncios testemunhais e merchandising durante o seu programa. Foi imediatamente substituído por Roberto Avallone, recém-demitido da TV Gazeta, onde apresentava o programa Mesa Redonda. Avallone é famoso, entre outros, pelo desprendimento em falar de sapatos, amortecedores, pregos, parafusos e cerveja em meio aos gols da rodada.
Avallone será substituído no Mesa Redonda por Flavio Prado, que estava comandando o Cartão Verde, na TV Cultura. Prado, um jornalista conhecido pelo comedimento com que falava de produtos comerciais na televisão, agora se diz disposto a abraçar o merchandising por não ver outra opção no horizonte. Ele será substituído no Cartão Verde justamente por Kfouri, que prossegue com seu compromisso de não misturar informação com publicidade em hipótese alguma.
