A volta a um passado que nunca existiu

Da FOLHA
Por RUY CASTRO
- A extrema direita transforma em glórias os crimes que se cometeram para garanti-las
- E é um passado ainda mais perigoso, porque promete um futuro que também nunca existirá
Em sessão recente na Academia Brasileira de Letras, meu colega, o escritor João Almino, levantou uma importante questão: a estratégia da extrema direita, que, “sob uma capa superficial de defesa da liberdade, da família, dos costumes, da tradição, da ordem, da religião, da nação, da civilização ou da própria democracia, adota um discurso de regresso ao passado”. E que passado é esse? Um que nunca existiu e muito menos foi vivido por aqueles que o defendem.
Um passado não só fictício como perigoso, porque transforma em supostas glórias os crimes que se cometeram para garanti-las e faz com que eles, os crimes, sejam vistos com naturalidade e anseio. Na Europa, isso se manifesta no atual controle pela extrema direita de países como Itália, Suécia, Hungria e Polônia e no crescimento dela na França, Espanha, Áustria e, inacreditavelmente, Alemanha. Que tais países estejam à beira de uma nova onda nazifascista já é suficientemente incompreensível –para que lutaram os avós desse pessoal entre 1932 e 1945? Mas, na Alemanha, é chocante –nenhum outro foi mais algoz e vítima de si mesmo.
Os argumentos dos extremistas europeus são os mesmos que Mussolini e Hitler usaram para se impor: crise econômica, nacionalismo, antiglobalização, xenofobia, pureza racial (luta contra a imigração) e a “volta à verdadeira essência da nação” —como se uma suposta essência fosse possível de determinar.
No Brasil, a receita bolsonarista adota a maioria desses ingredientes, enfatizando o papel da religião, com Jesus Cristo, como diz Almino, “rebaixado a cabo eleitoral”. Há também uma nostalgia da ditadura civil-militar –nostalgia que, para existir, precisa negar o que a sustentou por 21 anos: proibição de eleições, empobrecimento político de duas gerações, censura, prisões, tortura, exílio de seus melhores cérebros (de imediato acolhidos pelos EUA e pela Europa) e um falso “milagre econômico”.
Não é só a tentativa de volta a um passado que nunca existiu, mas a promessa de um futuro que também não existirá.

