Bolsonaro, evangélicos e a Virgem Maria

Por ROQUE CITADINI
É incrível a dose de ignorância do candidato à presidência pela oposição, senador Flávio Bolsonaro, ao propor, no final de agosto, que seu primeiro decreto seria um ato que proclamasse que o “Brasil é do Senhor Jesus Cristo”.
Com isso, entrou numa guerra sensível e problemática que há anos os grupos evangélicos desencadearam contra o catolicismo e contra a veneração à Virgem Maria.
Trata-se de uma campanha inteligente, maquiavélica e continuada dos evangélicos, que tentam um “apagamento” da veneração mariana, não propondo uma crítica à Virgem Maria, mas substituindo-a por um aparente outro slogan que — isoladamente — não teria problema.
Quem viaja por todo o país, em cidades pequenas e médias, onde Nossa Senhora Aparecida é sempre presença viva, vê que, em locais onde os evangélicos ganham importância política, imediatamente são substituídas imagens e homenagens à Virgem pelo slogan que diz que aquele território é do “Senhor Jesus”.
Apaga, desaparece e somem qualquer menção à Mãe de Cristo, que os católicos há séculos e séculos veneram e vivem.
É uma decisão dos evangélicos de ocupação paulatina de espaço, que vai gradativamente sendo substituído por um discurso aparentemente neutro, mas radicalmente diferente.
A questão de Maria é conflito central entre católicos e evangélicos, e o candidato foi se meter nessa confusão.
Para os católicos, Maria é parte central no mistério do cristianismo.
É venerada como mãe, virgem imaculada, acolhedora e presença diária na vida do povo.
Para os católicos, sua participação é central.
Apagar, desaparecer ou sumir com sua devoção é inaceitável.
E é isso que os evangélicos querem com essa campanha de ocupação paulatina de terreno.
Não se trata de remover seu status de “Rainha e Padroeira do Brasil”.
Isso foi feito por decisão do Vaticano na década de 30 e não vai mudar, mas, pouco a pouco, querem lançá-la num apagamento que leve o povo a não mais venerá-la, o que, no fundo, é o objetivo dos evangélicos.
É assustador que o candidato, um evangélico de orelhada, sem conhecimento ou profundidade, tenha dito que seu primeiro decreto seria abraçar a campanha dos evangélicos e que tantas consequências teria no país todo.
A partir de então, o prefeito e as lideranças locais retirariam imagens de Nossa Senhora Aparecida das localidades, mas agora com uma orientação nacional.
É possível que Flávio Bolsonaro não saiba nada disso, mas os católicos, padres, bispos, cardeais e, principalmente, os fiéis de Nossa Senhora sabem dessa guerra diária.
A questão, portanto, não é de fake news nem de tirar o título de Nossa Senhora Aparecida de Mãe, Pátria e Rainha do Brasil.
Isso é decisão da Igreja, que segue Roma, já está posto e não mudará.
A questão, muito mais séria e complicada, é a luta dos evangélicos pelo apagamento do culto mariano, e o candidato foi se meter nisso pulando, por ignorância e burrice, no barco dos radicais da Reforma Protestante.
O culto a Maria — o candidato não sabe disso, já que vive pegando um ou outro versículo bíblico para mostrar engajamento religioso — é essencial para a Igreja Católica Romana.
E não vai mudar.
*Publicado originalmente nas redes sociais de Roque Citadini

