Há algo de podre no reino dos Bolsonaros

Do ESTADÃO

EDITORIAL

Briga pública entre Michelle e Flávio pelo espólio do bolsonarismo expõe a natureza egocêntrica de um movimento que nunca teve raízes fincadas no que realmente importa para o Brasil

Se Shakespeare exagerasse um pouco no vinho, talvez escrevesse um dramalhão parecido com o que a família Bolsonaro ora protagoniza para todo o Brasil. Há de tudo ali: intrigas entre madrasta e enteados, o patriarca que não pode falar por si, conspiradores que instigam a cizânia e, sobretudo, a sede irrefreável de poder. Seria divertido, se fosse apenas uma peça de teatro. Mas não: a exposição pública das vísceras da família Bolsonaro, por meio de um vídeo publicado pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro com duras críticas ao enteado Flávio Bolsonaro, é uma pequena amostra da natureza degenerada do clã que tem chances consideráveis de voltar a governar o Brasil.

Essa novela só interessa aos brasileiros na medida em que abre uma fresta para testemunhar o projeto político de uma família que fez da via eleitoral um atalho para a dolce vita.

Desde que Jair Bolsonaro deixou o Exército – onde, não nos esqueçamos, foi punido por insubordinação e chegou a ser acusado de envolvimento num plano para explodir unidades militares –, migrou com sucesso para a política e construiu com os filhos algo que muito apropriadamente pode ser chamado de uma empresa familiar voltada à conquista e à manutenção do poder no seio da própria família. Mas não para implementar um projeto de desenvolvimento do Brasil, e sim para que todos, sobretudo o patriarca, pudessem viver à custa do Estado.

O bolsonarismo nunca foi uma visão de país, que dirá uma plataforma de governo. É uma habilíssima máquina de mobilização emocional de setores da sociedade construída sobre ressentimentos e a irresignação com as conquistas civilizatórias da Constituição de 1988. Nesse balaio de rancores e teorias da conspiração, entram o reacionarismo travestido de “conservadorismo de costumes”, a desconfiança nas instituições republicanas, o desdém pelo conhecimento, a hostilidade ao diálogo e o antipetismo, donde vem sua força eleitoral.

Sem o nome de Jair Bolsonaro nas urnas, o que resta é essa briga interna por seu espólio político. Michelle, uma espécie de Lady Macbeth da Casa de Bolsonaro, dá sinais de querer trilhar uma carreira política autônoma, ainda que negue publicamente essa intenção. Flávio é pré-candidato à Presidência da República. Outros filhos de Bolsonaro têm suas próprias pretensões eleitorais. Cada um se ocupa de seus interesses particulares – e o Brasil, claro, não entra nessa equação.

Nenhum dos protagonistas do reality show da família Bolsonaro perde tempo ou tem competência para discutir a sério assuntos que considera menores, como a carestia, o descontrole das contas públicas, a baixa produtividade, o desalento entre os jovens, as deficiências da educação básica e a violência urbana. Seria pedir demais. Afinal, a família Bolsonaro nunca se preocupou com nada disso. Sempre foi mais fácil apontar o inimigo – o PT, a imprensa profissional, o Supremo Tribunal Federal e o comunismo internacional, entre outros fantasmas – do que propor soluções para problemas reais sobejamente conhecidos, que exigem competência técnica, habilidade política, respeito por adversários e, acima de tudo, interesse genuíno no bem comum.

O bolsonarismo só sobrevive porque o antipetismo é uma força real e legítima na sociedade brasileira, e Bolsonaro soube como nenhum outro político se apresentar como o candidato anti-Lula. Mas, no que concerne aos interesses do Brasil, isso não basta. Apresentar-se como a nêmesis do petista não é um plano de governo. É, quando muito, uma eficiente estratégia eleitoral.

Felizmente, a sra. Michelle Bolsonaro resolveu fazer um grande favor ao Brasil ao gravar e divulgar seu depoimento a respeito de Flávio Bolsonaro. Assim, deu aos eleitores conservadores a chance de ver, com os próprios olhos, de que material é feito o bolsonarismo original. Quem sabe os estimule, finalmente, a procurar alternativas que estejam genuinamente interessadas em governar o Brasil com bom senso e dignidade – qualidades estranhas a Jair Bolsonaro e sua grei.

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