Haddad foi um bom ministro

Da FOLHA

Por CELSO ROCHA DE BARROS

  • Mesmo assim, boa parte da esquerda o chama de neoliberal
  • Já mercado lamenta que Haddad não tenha feito um ajuste fiscal mais duro

Fernando Haddad fez a reforma tributária que 9 entre 10 economistas achavam necessária para destravar o capitalismo brasileiro. Cobrou imposto dos ricos como nenhum governo de esquerda havia cobrado. Conseguiu entregar desemprego e inflação baixos, crescimento médio maior do que o dos últimos anos e foi o único político brasileiro, pelo que se sabe até agora, que se recusou a conversar com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

Fernando Haddad foi, portanto, um bom ministro.

Mesmo assim, boa parte da esquerda o chama de neoliberal, e o mercado lamenta que Haddad não tenha feito um ajuste fiscal mais duro.

A acusação de neoliberal surgiu quando Haddad propôs seu arcabouço fiscal, que limitou o crescimento do gasto público a 70% do aumento de receita do governo. Com o arcabouço, Haddad passou a ter dificuldades em manter duas políticas caras ao PT: aumentos do salário mínimo proporcionais ao crescimento do PIB (o que acelera o crescimento das despesas previdenciárias indexadas ao mínimo) e a indexação dos gastos com saúde e educação em 100% do aumento da receita. Essas despesas que crescem, por lei, tanto quanto ou mais que a receita dificultam manter o gasto todo dentro do 70%.

Esses problemas ainda precisam ser equacionados. Em 2024, Haddad chegou a postar um texto do economista Bráulio Borges que defendia mudanças na indexação dos gastos sociais. Recentemente, tem defendido a unificação de vários programas sociais em uma renda básica.

De qualquer jeito, fica a pergunta para os críticos de esquerda do ministro: os bons resultados que Haddad entregou foram fruto de seu neoliberalismo? A reforma tributária de 2023, que, segundo todas as projeções, deve favorecer a indústria brasileira e elevar nosso PIB potencial, foi “austericida”? Foi o neoliberalismo que inspirou Haddad a taxar os ricos brasileiros, algo que ninguém tinha feito, nem os outros governos petistas?

Quanto aos críticos de Haddad no mercado, sugiro que prestem atenção no comportamento recente de Flávio Bolsonaro. Ele tem topado defender abertamente o ajuste que vocês querem? Ele vai se comprometer publicamente a congelar o aumento real do salário mínimo, como fez Paulo Guedes no governo Bolsonaro? Se para Flávio Bolsonaro, que depende menos do eleitorado de baixa renda, o programa de vocês soa como suicídio político, por que um governo de esquerda o implementaria?

O mais provável é que o problema fiscal brasileiro seja resolvido sem mágica, como a reforma tributária foi negociada: com paciência, acordos, regras de transição, compensações para quem sair perdendo.

Fernando Haddad começou o governo como favorito a ser o candidato do PT em 2026. Isso acirrou a oposição contra ele, tanto na direita do Congresso quanto entre outros petistas que se consideravam presidenciáveis.

Quando o PT viu toda a elite se entusiasmar com Tarcísio, o bom trânsito de Haddad junto ao mercado perdeu valor para o PT: não adiantava agradar quem já estava fechado com o outro lado.

Jair passou a perna em todo mundo e agora tanto Haddad quanto Tarcísio, que poderiam estar disputando a Presidência, brigarão pelo governo de São Paulo. Pode ser bom para os paulistas.

Seja qual for seu futuro, Haddad ministro fez muita coisa boa durante três anos dificílimos. Merece aplauso.

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