Guerra no Irã: mais um povo deixado para trás

Da FOLHA

Por CILENE VICTOR

  • Tragédias humanitárias parecem se misturar com o fluxo trivial dos acontecimentos cotidianos
  • Iranianos devem decidir seu futuro sem interferências externas; vizinhos são exemplos do preço dessa ingerência

Guerras não são súbitas; são construídas. Crescem na retórica política, amadurecem na desinformação e ganham força quando instituições multilaterais criadas para preveni-las se enfraquecem. Conflitos se consolidam quando a opinião pública passa a aceitar a escalada da violência como inevitável e a definição de que algumas vidas valem menos do que outras deixa de ser velada. Gaza materializou essa lógica. A tragédia em Minab, no sul do Irã, é a confirmação mais recente.

Em 2016, no quinto ano da guerra na Síria, a ONU realizou em Istambul a primeira Cúpula Mundial Humanitária. A Agenda para a Humanidade, proposta pelo secretário-geral da organização à época, Ban Ki-moon, estabeleceu cinco responsabilidades centrais: prevenir e encerrar conflitos; respeitar as regras da guerra; não deixar ninguém para trás; trabalhar de maneira diferente para reduzir necessidades humanitárias; e investir na proteção da humanidade.

A ideia era marcar um ponto de inflexão sobre como o mundo responde a guerras e crises humanitárias. Prestes a completar uma década, esse compromisso parece ter sido abandonado.

A escalada militar contra o Irã anuncia a chegada de uma nova crise humanitária. O Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, pediu uma investigação independente sobre o bombardeio a uma escola feminina em Minab, no sul do país, que matou mais de 170 crianças e funcionários.

Ao comentar ataques israelenses contra centros religiosos e políticos na cidade de Qom, o presidente Donald Trump afirmou que todas as pessoas que Washington imaginava para uma eventual liderança no Irã já estariam mortas. Quando o premiê Binyamin Netanyahu afirma que Israel pretende matar o novo líder supremo iraniano, perde ainda mais força o argumento de que a guerra seria para impedir o avanço do programa nuclear do país persa.

A história recente reúne justificativas semelhantes. Em março de 2003, EUA e Reino Unido invadiram o Iraque sob o argumento de que o país possuía armas de destruição em massa. Elas jamais foram encontradas. Grande parte da mídia e da opinião pública reforçou essa narrativa. O resultado foi um país devastado e politicamente instável.

Em 2019, estive no Oriente Médio com uma colega jornalista, como enviadas do Jornal da Cultura. Chegamos primeiro ao Irã, em meio a ameaças públicas de ataque feitas por Trump em seu primeiro mandato. Em um tuíte, ele advertiu que um confronto poderia significar “o fim oficial do Irã” e chegou a anunciar uma ofensiva —cancelada minutos antes de ser executada. Em Teerã e Qom, porém, a vida cotidiana contrastava com as manchetes de guerra. Famílias faziam piqueniques nos parques e peregrinos continuavam chegando aos santuários.

Depois do Irã seguimos para Iraque e Líbano, onde o ciclo de vida do sofrimento humano traduzia claramente a lógica de deixar alguns povos para trás. No Iraque, em Bagdá, Najaf e Karbala, oito anos após a retirada das tropas americanas, os sinais de destruição apareciam em cada detalhe, da infraestrutura às histórias das pessoas, marcadas pelo caos político, econômico e social e pela ascensão do Daesh, conhecido no Ocidente como Estado Islâmico. No Líbano, a realidade nos campos de refugiados palestinos e sírios imprimia sua própria mensagem. Guerras prolongadas e deslocamentos forçados não impedem o mundo de seguir o seu curso, sem olhar para trás.

Os iranianos devem decidir o futuro do seu país sem interferências externas. Os países vizinhos ao Irã são exemplos do preço dessa interferência. Atribui-se ao ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan uma máxima muito usada no contexto de desastres: o sofrimento de uma população, após uma tragédia, começa, de fato, quando a última emissora se retira de cena. Um dia, o mundo parou diante das imagens de Cabul tomada pelo Talibã. Hoje, não se discute o destino dos afegãos nem das crianças expostas à prática do “bacha bazi”, conhecida como “dança dos meninos”. Quantos líderes internacionais condenaram e pediram investigação do assassinato das crianças em Minab?

Zygmunt Bauman foi certeiro ao dizer que o destino dos choques é cair no véu da normalidade. Com mais de 120 conflitos armados no mundo, segundo o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, as tragédias humanitárias parecem se misturar com o fluxo trivial dos acontecimentos cotidianos.

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