Se até a medicina está formando mal, quem está olhando para a odontologia?

Da FOLHA
Por FÁBIO BIBANCOS
- Área não tem instância reguladora que assegure régua técnica mínima para início do exercício profissional
- O que temos é um mercado saturado, com jovens sendo lançados à prática sem segurança e treinamento
Nos últimos dias, uma notícia chamou atenção: mais de 13 mil estudantes de medicina foram reprovados no Enamed, o exame nacional que avalia a formação dos futuros médicos no Brasil.
O próprio Conselho Federal de Medicina (CFM) considera impedir que esses profissionais mal avaliados recebam registro profissional. Isso é assumir que existe um problema e criar as bases para a discussão e solução.
É urgente perguntar: se em cursos de medicina, historicamente tratados como “os melhores”, “os mais difíceis” ou “os mais caros”, há estudantes concluindo a graduação sem domínio do básico, o que podemos esperar de outras áreas da saúde?
Na odontologia, não temos nenhuma prova nacional de proficiência clínica. Não temos um similar ao exame da OAB. Não temos nenhuma instância reguladora que assegure, pelo menos, uma régua mínima técnica para o início do exercício profissional.
O que temos é um mercado saturado, centenas de faculdades surgindo ano a ano e jovens sendo lançados à prática sem segurança, sem treinamento. Nem sempre por falta de empenho individual, mas por falhas estruturais da formação em um sistema que autoriza a multiplicação dos CNPJs.
Odontologia é saúde. E saúde é dignidade.
Tratar dentes é tratar dor, autoestima, mastigação, sono, fala. É garantir que uma criança possa sorrir sem vergonha, que uma mulher retome sua autoconfiança após anos de violência, que um jovem possa se sentir apto a disputar uma vaga de emprego. É permitir que alguém durma em paz, fale com clareza, se alimente com prazer, volte a se enxergar no espelho com orgulho. A base da ONG Turma do Bem, que oferece atendimento odontológico gratuito à população de baixa renda, nasceu desse entendimento profundo: de que cuidar da boca é cuidar da vida.
Como empresário e presidente de ONG, participei de muitos processos seletivos e sempre vejo essa má formação acontecer na prática. Somos obrigados a medir os candidatos muito mais pelo caráter e pela empatia que demonstram. Só depois oferecemos o treinamento técnico, prático, com vivência e com acompanhamento —aquilo que a formação universitária ainda não garante.
Há muitos dentistas comprometidos, excelentes, que constroem uma carreira baseada em estudo, integridade e entrega. E eu conheço muitos deles, porque tenho a sorte de ter marcado a minha trajetória com a solidariedade desses profissionais, com a contribuição e com o coleguismo do mais alto nível. Mas isso não anula a necessidade de uma discussão profunda sobre o nosso modelo de formação.
A fragilidade da formação profissional é também uma fragilidade do sistema de saúde. Uma sociedade que não garante segurança no atendimento, qualidade dos profissionais e seriedade nas instituições mina a própria ideia de cuidado.
A medicina começa a encarar essa conversa. Está na hora de a odontologia assumir esse debate também.
