Complexa e áspera, São Paulo faz 472 anos com contradições, problemas e doses de esperança

Do ESTADÃO
Por LEANDRO KARNAL
Fui moldado na metrópole e desenvolvi o verdadeiro amor: aquele que se entrega a um objeto difícil. Terei força para viver aqui minha senectude?
Moro em um município de quase doze milhões de habitantes. A minha cidade chega, hoje, a 472 anos. É uma adolescente comparada a Xian, Atenas, Jericó ou Damasco. Por vários motivos, porém, sofre de senilidade precoce. São Paulo é um mundo de contradições e de problemas.
As calçadas da minha Pauliceia são perfeitas para alpinistas ágeis que estejam treinados para superfícies pedregosas irregulares. As árvores são poucas e, quando existem, costumam tornar as calçadas ainda menos planas. Os motoristas daqui são, em grande quantidade, apressados e grosseiros. Praças escassas, com pouco ou nenhum paisagismo. O verde acompanha a concentração de renda. A violência grassa. A desigualdade grita. Há pontos bonitos: são pequenos oásis em um oceano de fealdade. A rua paulista é um campo de batalha. Quem volta seguro à casa deve ser saudado como um novo Ulisses que enfrentou uma guerra e monstros marinhos, conseguindo retornar a sua Ítaca após tormentas. Chegar seguro de volta ao seu lar paulistano deve ser comemorado.
“Que péssimo parágrafo no dia do aniversário da cidade, Leandro.” Sim, mas aqui começa o paradoxo. Amo esta cidade desde a primeira vez que a vi, em fevereiro de 1987. Vim para a seleção da pós na USP. Desci na Rodoviária do Tietê, como tanta gente. Peguei um metrô e cheguei à República. Foi amor à primeira vista.
Ouvi que lar é o lugar de onde não conseguimos mais nos mudar. Seria como ter achado um nicho no vasto mundo. Moro aqui desde aquele momento e nunca imaginei viver em outro lugar. Descobri o mundo na Pauliceia desvairada. Fui moldado na metrópole e desenvolvi o verdadeiro amor: aquele que se entrega a um objeto difícil. Terei força para viver aqui minha senectude?
Uma vez eu estava em Genebra com minha orientadora Janice Theodoro. Percorremos as margens do lago Léman com pinheiros belíssimos, alguns de tom azulado. O sol se punha e o jato do lago se erguia ao fundo. Era verão e a luz ainda existia mesmo sendo início da noite. Comentei com ela que era fácil amar Genebra: esquilos, gente indo para o Palácio da ONU, lago sereno e luz difusa. Genebra era um objeto de entrega sem atrito. Porém, eu amo São Paulo, complexa e áspera. Não é muito racional. Talvez seja amor mesmo.
Amo São Paulo pela ambiguidade da humanização que ela provoca. Ela desafia e exige o melhor de cada um. Em meio a tantas coisas complexas, somos expostos ao cosmopolitismo de pessoas, de ideias, de fatos. Amo museus e a música. Amo a comida. Acima de tudo, fico maravilhado em encontrar tanta gente com horizontes que esbarram no Pico do Jaraguá, porém se ampliam ao infinito.
Acho que São Paulo é uma cidade com alma específica para um tipo particular de pessoa. Não é melhor ou pior do que Borá, a cidade paulista com 907 habitantes, menos do que um condomínio na capital. Existe vida, dignidade e beleza em Borá. Talvez quem seja feliz lá, não o seria aqui.
Uma amiga passou por São Paulo e viu as marginais em dia de glória engarrafada, contemplou a sujeira dos rios, divisou a skyline cinza de prédios e, conforme me disse, perguntou como eu seria capaz de morar em um lugar como este. Difícil explicar. Sinto que sou quem sou, em parte, porque vim para São Paulo. Sinto que aqui estou cercado de pessoas que me desafiam e de experiências culturais únicas. Amo o fim de tarde bucólico com um riacho ao fundo em um sítio da Mantiqueira, porém, em um mês, estaria sufocado pelo tempo geográfico lento e pelo limiar de fatos locais. Não idealizo a minha cidade, apenas a amo. Incomoda-me como ela é maltratada por tanta gente e isto reforça minha vontade de fazer parte do esforço de melhorar este espaço de humanidade que surgiu de um projeto geopolítico luso-jesuítico.
Como eu disse, morar aqui exige bastante energia. Talvez, com 82, eu não tenha mais a força de dirigir em meio à grosseria invasiva de tantos moradores e veja as calçadas como um risco para meu fêmur fragilizado. Talvez, como já pensei, eu encontre o epílogo em um lugar um pouco menos desafiador. Nada sabemos sobre o futuro. Gostaria apenas de ser honesto e reconhecer, no fim da minha história, ao ver a minha querida São Paulo na televisão, que “ali fui feliz, cresci, amei, fui desafiado e produzi”. Não há como explicar: eu me emociono ao pensar São Paulo. Ela 472, aquariana como eu, ambos com cansaços, muitas conquistas e uma curiosa fome de crescer e de viver. Parabéns, São Paulo! Tenho esperança de que, um dia, seremos melhores em calçadas seguras e trânsito tranquilo. Tenho esperança de que as muitas oportunidades de São Paulo estimulem nossa solidariedade e menos nossa competitividade. Tenho muito desejo de uma cidade pautada pela ética e pelo bem-comum, com menos violência e mais humanidade. Ao expressar estes desejos, meu sentimento me desafia a perguntar: o que estou fazendo para isto? Como eu contribuo? E, adaptando a fala de Kennedy, elaboro: “não pergunte o que São Paulo pode fazer por você, mas o que você pode fazer por São Paulo”. Hoje, eu fiz este texto, carregado de esperança rumo aos 500 anos. Feliz aniversário, paulistanos de todo o mundo.
