Pedro, do BBB, não é exceção

Da FOLHA
Por JOANNA MOURA
- Participante atacou uma mulher na frente das câmeras, na frente da equipe de produção, na frente dos olhos do Brasil
- Toda mulher já recebeu uma investida mais agressiva, já foi tocada de maneira imprópria, já foi encarada incessantemente
Eu já fui viciada em BBB, mas há anos não acompanho o programa, pelo menos não por livre e espontânea vontade. Se lá em 2000, quando o Big Brother foi ao ar pela primeira vez no Brasil, bastava desligar a televisão para ficar alheio ao que acontecia na “casa mais vigiada do Brasil”. Hoje, feliz ou infelizmente, as redes sociais não me permitem mais o completo alienamento dos barracos e confusões que rolam por ali.
Há dias, por exemplo, venho sendo involuntariamente informada sobre um tal participante desta edição. Trata-se de Pedro, um “não famoso” que, em menos de uma semana, já havia arrumado confusão com outros participantes, protagonizado falas sem nexo, dado socos no ar no meio do gramado e incansavelmente repetido que havia traído a esposa.
Tentei ignorar o quanto pude enquanto a internet debatia se o comportamento de Pedro seria estratégia, burrice, loucura ou maldade. Até que —novamente de forma involuntária— recebi a informação de que o tal Pedro havia tentado beijar à força outra participante.
A derradeira atitude de Pedro, que apertou o botão de desistência logo depois de ter seu crime exposto aos demais participantes, não me causa qualquer surpresa. Afinal, está longe de ter sido a primeira vez que um “brother” ataca uma colega de confinamento. Na edição de 2023, o lutador conhecido como Cara de Sapato e o cantor MC Guimê foram expulsos por importunar sexualmente a participante Dania. Em 2020, outros dois casos envolveram o ginasta Petrix Barbosa e o hipnólogo Pyong Lee. Em 2012, Daniel foi expulso depois de ter protagonizado movimentos embaixo do edredom com uma colega de confinamento que estava claramente alcoolizada.
Para além da tela da Globo, a violência sexual tampouco é exceção. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, 1 em cada 3 mulheres já sofreu violência física ou sexual ao longo da vida. Eu ouso afirmar: é mais do que isso, são todas.
Toda mulher já recebeu uma investida mais agressiva, já foi tocada de maneira imprópria, já foi encarada incessantemente, já ouviu um comentário descabido num ambiente de trabalho. Muito mais do que 1 em cada 3 já se sentiu coagida a fazer sexo com um parceiro quando só queria dormir. E o dado coletado pela OMS só me mostra que ainda há muito desconhecimento por parte das próprias mulheres do que constitui uma violência sexual ou de gênero.
Voltando ao BBB, Pedro não é exceção. Seu comportamento não é loucura, nem surto, nem estratégia. É NORMAL. Não no sentido de que é o que devemos considerar o correto, mas de algo que infelizmente é a NORMA de uma sociedade que consciente ou inconscientemente vê a mulher como coisa, propriedade, subordinada aos desejos e demandas de homens.
Pedro atacou uma mulher na frente das câmeras, na frente da equipe de produção, na frente dos olhos do Brasil. E ainda assim, Pedro não foi expulso do programa imediatamente. Mesmo depois de sua vítima ter dividido o ocorrido com outros colegas do reality show, Pedro recebeu do programa a cortesia do tempo para que pudesse sair nos seus termos.
Em muitos aspectos, o BBB está longe de ser uma representação fiel do Brasil. De “reality show”, o BBB não tem nada. Desde a seleção de participantes às provas que levam ao limite da fome e da exaustão. Mas, no que diz respeito a este e outros casos de violência sexual já televisionadas pelo programa, infelizmente, o que se vê é o mais puro retrato da realidade.
