A doutrina Trump em ação

Do ESTADÃO

EDITORIAL

A crescente pressão sobre Maduro serve como exemplo de como os EUA sob Trump pretendem impor seu poder à América Latina: sai a defesa dos valores liberais, entra a força bruta

A escalada entre os EUA e a Venezuela deixou de ser um episódio retórico ou um gesto tático. Ela se tornou o teste mais explícito até agora da política hemisférica de Donald Trump em seu segundo mandato – e um sinal de como Washington pretende exercer poder na América Latina. O destino de Nicolás Maduro é apenas parte da equação. O que está em jogo é o precedente que a Venezuela estabelece para a região.

A crise não nasce de um incidente isolado. Ela decorre de uma reinterpretação deliberada da Doutrina Monroe (“A América para os americanos”), combinada à nova Estratégia de Segurança Nacional da Casa Branca. O Hemisfério Ocidental passa a ser tratado como espaço de controle prioritário, onde a presença de China, Rússia, Irã e Cuba não é vista como competição legítima, mas como violação estratégica. A Venezuela surge, assim, como laboratório de uma política mais coercitiva: se Washington não impuser limites ali, sua credibilidade hemisférica se dissolve.

Esse movimento se encaixa numa lógica geopolítica mais ampla. Trump abandona a axiologia da ordem liberal e adota uma política clássica de grandes potências. A tolerância com a agressão russa na Ucrânia, a ambiguidade em relação a Taiwan e a agressividade na América Latina fazem parte do mesmo desenho: valores cedem lugar a esferas de influência. Para seus defensores, trata-se de realismo tardio; para seus críticos, de cinismo institucionalizado. Em ambos os casos, a Venezuela deixa de ser exceção e passa a ser sintoma.

O conflito também é enquadrado como questão de segurança nacional. Maduro foi indexado como “narcoditador” e seu regime como um Estado-cartel, o que legitimaria ações extraterritoriais, operações navais e ações secretas. A Venezuela se converte em campo de teste de uma doutrina de guerra híbrida contra o crime organizado. O problema é que os dados sobre o peso real do país no fluxo de drogas rumo aos EUA são menos conclusivos do que a retórica sugere – o que levanta dúvidas sobre o uso instrumental da narrativa antidrogas.

Migração e petróleo ajudam a explicar a pressão, mas não a determinam. Trump trata o êxodo venezuelano como ameaça de fronteira, embora sanções e instabilidade tendam a ampliá-lo no curto prazo. Já o petróleo venezuelano não é motor da escalada: os EUA não dependem dele. O interesse é estratégico: negar o recurso a rivais e condicionar politicamente o setor energético venezuelano. Em ambos os casos, são instrumentos, não causas centrais.

O ponto mais delicado permanece a mudança de regime. Há consenso de que Maduro pode cair; há profundo dissenso sobre o dia seguinte. A Venezuela é um Estado corroído, com Forças Armadas politicamente leais ao regime, porém institucionalmente degradadas, e com o monopólio da força diluído entre militares, milícias e redes criminosas. A doutrina Trump rejeita projetos de “reconstrução nacional”, mas não pode ignorar o vácuo de poder que a queda do regime criaria. Derrubar pode ser rápido; estabilizar, não.

Na região, o desconforto é evidente. Brasil, México e Colômbia rejeitam uma ação militar, mas têm pouco poder de veto. O custo diplomático imediato para Washington é baixo, reforçando a sensação de retorno à lógica do “quintal estratégico”. A América Latina assiste, mais uma vez, a uma crise que a afeta diretamente sem ser protagonista dela.

Trump não reivindica coerência democrática – e isso muda o debate. A ausência de hipocrisia pode parecer algo como uma virtude, mas não elimina riscos. A história latino-americana mostra que atalhos militares substituem política por coerção e costumam cobrar o preço depois. A questão não é defender a tirania de Maduro, mas reconhecer que a política de força raramente entrega a estabilidade que promete.

A crise entre EUA e Venezuela revela menos sobre Caracas do que sobre o mundo de Trump: a normalização das esferas de influência, o abandono da ordem liberal e a aceitação do caos como custo estratégico. O perigo não está apenas em errar na Venezuela, mas em transformar o hemisfério num espaço onde a força substitui a política, e onde os efeitos colaterais tendem a atravessar fronteiras.

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