Japão à direita

Imagem: IA

Da FOLHA

EDITORIAL

  • Sanae Takaichi assume liderança do partido governista, mas enfrenta desafio para ser primeira-ministra
  • Sua postura nacionalista radical gera preocupação; Takaichi quer rever o veto à remilitarização e relativiza os crimes de guerra do Japão

A onda de direita radical que varre democracias avançadas mundo afora ainda não atingiu de fato o Japão, mas já provoca mudanças importantes no cenário político local.

Durante 70 anos, o conservador Partido Liberal Democrata (PLD) foi a força dominante. Desde sua fundação, em 1955, esteve no poder continuamente —exceto por dois intervalos, entre 1993 e 1996 e de 2009 a 2012.

Em 2024, abalroado por escândalo de financiamento de campanhas e tendo de lidar com um eleitor cada vez mais desconfiado das siglas tradicionais, o PLD e seu parceiro de coalizão, o partido centrista Komeito, perderam maioria na Câmara Baixa e, em 2025, na Câmara Alta. Shigeru Ishiba, que era o premiê do país e líder do PLD, renunciou em setembro, após 11 meses no cargo.

Os vencedores das eleições gerais de 2024 incluem o Partido Constitucional Democrático do Japão —uma agremiação liberal de centro-esquerda, fundada em 2017, que se tornou em curtíssimo espaço de tempo a segunda maior força do Legislativo— e duas pequenas legendas de direita radicalizada, o Sanseito e o Partido Conservador do Japão.

A resposta do PLD à crise foi o recrudescimento ideológico. A eleita para substituir Ishiba na liderança do partido foi Sanae Takaichi, que diz inspirar-se em Margaret Thatcher e tem posições bem mais conservadoras do que a de seus antecessores.

Em economia, pode ser considerada convencional, defendendo a continuação da Abenomics, a política de juros baixos, estímulos fiscais e reformas estruturais inaugurada pelo ex-premiê Shinzo Abe (2012-2020).

Na seara do comportamento, contudo, é linha-dura, opondo-se ao casamento gay, a esposas manterem o sobrenome de solteira e à possibilidade de uma imperatriz assumir o trono.

Mas é sua postura nacionalista extremada em política externa que causa mais preocupação.
Takaichi defende rever a legislação que veda a remilitarização do país, diz que há muito exagero em relação aos crimes de guerra cometidos pelo Japão e é frequentadora do cemitério de Yasukuni, onde estão enterrados, com honras, 1.066 criminosos de guerra —sempre que uma autoridade do país visita Yasukuni, há grande estremecimento nas relações com China e Coreia do Sul.

A liderança do PLD já garantiria o posto de primeira-ministra. Mas o Komeito não aprovou a escolha e saiu da coalização, complicando o quadro. Takaichi ainda pode vir a ser a primeira mulher a governar o Japão, mas enfrentará disputas pelo cargo.

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