Covid deixou como legado invisível duas novas pandemias

Da FOLHA
Por GILBERTO URURAHAY
- Mais jovens adquirem câncer, mais adultos estão ansiosos e estressados
- Crise atual nasce do estilo de vida e exige prevenção como estratégia de saúde pública
A pandemia de Covid-19 terminou oficialmente, mas seus efeitos continuam moldando o presente. Não convivemos apenas com um vírus que já chegou à quadragésima mutação: herdamos duas novas pandemias que ameaçam silenciosamente a saúde pública mundial —a das doenças crônicas e a da saúde mental fragilizada.
O medo, o isolamento e a incerteza alteraram rotinas de forma radical. Durante a crise sanitária, aumentou o consumo de álcool, alimentos ultracalóricos e industrializados. O sedentarismo se instalou, enquanto noites mal dormidas se tornaram regra. O resultado é visível nos consultórios: 20% das pessoas estão obesas, 22% hipertensas, 35% apresentam esteatose hepática —o popular fígado gorduroso— e 35% convivem com insônia. Esses números não são estatísticas distantes, são o retrato de uma população que passou a carregar no corpo as marcas da pandemia.
O quadro é ainda mais alarmante porque a faixa etária atingida mudou. Doenças antes associadas a idades avançadas agora aparecem em jovens de 30 ou 40 anos. Casos de câncer de próstata em homens de 40 a 45 anos já não são raros. Mulheres que no passado pareciam “protegidas” pelos hormônios hoje infartam tanto quanto os homens, resultado direto da sobrecarga da dupla ou tripla jornada, do tabagismo, do álcool e do estresse cotidiano. Tumores de intestino e mama em mulheres jovens tornaram-se achados cada vez mais frequentes. O recado é duro: somos produtos do meio em que vivemos, e um estilo de vida desajustado cobra cedo o seu preço.
A segunda pandemia, invisível aos olhos, é a da saúde mental. Nos últimos anos, cresceram de forma inédita os casos de estresse pós-traumático, ansiedade, pânico, depressão e burnout. Mais de 70% da população brasileira convive hoje com níveis elevados de estresse. E o estresse não é frescura. Está descrito na Classificação Internacional de Doenças e atua como gatilho poderoso: o excesso de cortisol deprime a imunidade, aumenta a coagulação e favorece a formação de trombos. Já a adrenalina em alta provoca taquicardia, arritmias, insônia e um círculo vicioso de desgaste físico e emocional.
A ciência confirma esse impacto. Estudos da Universidade Harvard mostram que 80% das consultas médicas no mundo têm relação direta com o estresse, e que apenas 5% da população responde por 50% dos gastos em saúde. Isso explica por que doenças crônicas e transtornos mentais caminham juntos: o estresse prolongado favorece obesidade visceral, diabetes, hipertensão e câncer, ao mesmo tempo em que mina o equilíbrio psicológico.
Esse legado da Covid-19 não pode ser ignorado. No consultório, a cada exame, a cada conversa, fica evidente como a pandemia deixou sequelas silenciosas. O corpo humano, assim como a natureza, reage às agressões. Se desmatamentos provocam queimadas e influenciam a mudança climática, más escolhas repetidas —má alimentação, sedentarismo, privação de sono e estresse crônico— provocam infartos, AVCs e tumores.
A boa notícia é que também temos as ferramentas para virar esse jogo. Alimentação equilibrada, atividade física regular, sono reparador, manejo do estresse e rastreios em tempo adequado formam o núcleo duro da prevenção moderna. Não se trata de luxo, mas de estratégia. Cada dólar investido em prevenção pode economizar sete em tratamentos futuros. Em escala individual, é a chance de viver mais e melhor. Em escala coletiva, é a forma mais inteligente de aliviar sistemas de saúde sobrecarregados e garantir produtividade às empresas e à sociedade.
Sem saúde, não se vai a lugar nenhum. Preservar corpo e mente é um compromisso que começa no indivíduo, mas se estende à família, às empresas e ao país. A Covid-19 escancarou nossas fragilidades e deixou duas pandemias ativas. Cabe a nós escolher se elas serão uma sentença ou um chamado à mudança. Se quisermos viver com autonomia e longevidade, precisamos assumir a prevenção como propósito coletivo.
