Fabiane Albuquerque e o ‘envelheça’ para ser justa

Da FOLHA
Por JUCA KFOURI
Pelé foi o Rei do Futebol, engrandeceu a nação e dizer que ele não fez mais do que qualquer outro negro pelos negros é prepotência e ignorância
Cara Fabiane Albuquerque: no artigo “Juca Kfouri e o ‘eu sei o que foi melhor para vocês’” (1º/9), publicado neste espaço, você pede a este branco, privilegiado economicamente e, sobretudo, como fez questão de frisar, idoso, que gostaria de pedir a citação de quatro feitos de Pelé, só quatro, que mudaram a vida do negro brasileiro.
E diz que não o faria para não morder a isca dos brancos que sabem o que é melhor para você e seu povo. Diz mais: que como eu não saberia responder, a acusaria de odiar o Rei do Futebol.
Impressionante, Fabiane!
Você, sem um pingo de arrogância e nariz empinado, sabe a minha resposta por saber de mim mais que eu mesmo.
Daí você disserta sobre o que eu quis dizer nas entrelinhas, como aqueles biógrafos que dizem o que o biografado pensou sem jamais ter conversado com ele.
Então, você ensina que Pelé fez mesmo foi pela branquitude, que permitiu minha autoridade pública.
Engano seu, Fabiane.
Minha autoridade não vai além dos limites de minha casa e olhe lá. Não sei se você, Fabiane, viu o programa todo, ou só o corte que está no YouTube.
Não, não direi que tiraram do contexto e que peço desculpas se alguém se ofendeu, além de responder o que está nas entrelinhas. Se viu, terá visto a citação a Nelson Mandela, que um dia afirmou mais ou menos o mesmo dito por mim. Talvez você não saiba, nem tem a obrigação de saber, que Muhammad Ali disse que “Pelé é o único que pode me chamar de irmão”.
Que Pelé foi eleito pela imprensa branca francesa como “O Atleta do Século”, ao superar formidáveis concorrentes brancos e amarelos, o que fez dele —cinco vezes campeão mundial e autor de quase 1.300 gols, como ninguém nem antes, nem depois— motivo de orgulho, além do Brasil, de toda imensa população negra pela Terra afora.
A única desculpa que lhe peço é por reproduzir, sem tirar nem pôr, ou melhor, apenas acrescentar o “não” no que você escreveu embaixo do título de seu texto, ao me chamar de ignorante —convenhamos, termo pouco educado em relação ao idoso que vos escreve.
Os brancos racistas, Fabiane, acusam Pelé de só ter namorado mulheres brancas, embora sua derradeira companheira seja nissei; estes sim, por ignorar que, no meio em que ele viveu, era mínima a chance de se apaixonar por uma negra.
Aceite o conselho de Nelson Rodrigues e envelheça.
Aproveite e conceda a Darcy Ribeiro, ao Marechal Rondon, aos irmãos Villas-Bôas, autoridade para defender os indígenas, muito embora indígenas não fossem.
Sei que você sabe que eu teria direito de resposta, “sem outroladismo”; só ouvir o outro lado, práticas distintas.
Eu não disse que Pelé foi militante da causa antirracista que nos une, você e eu, mas que seu fazer, mais que seu pensar e dizer, fez dele o negro mais admirado do planeta.
Basta andar por aí para constatar.
