No território aflitivo do nonsense, o Brasil resiste

Da FOLHA
Por LUÍS FRANCISCO CARVALHO FILHO
Trump se preocupa com pirataria, mas cala sobre o uso de conteúdo jornalístico por empresas de IA
Rui Tavares compara Trump a Nero. O imperador é louco.
Para alguns, é só mania de grandeza. Deixa passar. Para outros, finge ser louco, imprevisível, para ver opositores perplexos e, de joelhos, os aliados. Se é louco, não rasga dinheiro. Por sepultar a primeira mulher, Ivana, em campo de golfe de sua propriedade, Trump obteve curiosa vantagem tributária em New Jersey.
A última coluna do historiador na Folha é especialmente interessante ao se debruçar sobre o “gerenciamento do delírio” pelos outros governantes, pela humanidade. O império contra-ataca. É destrutivo, arbitrário, imoral. Alguns afagam seu ego, ainda que privadamente ou de mentirinha. Outros obtêm recuos táticos e pequenas vitórias.
Para Rui Tavares, o mundo, independentemente do humor dos tiranos, pode e deve “seguir adiante”, construindo regras e instituições internacionais razoáveis e realistas.
Candidatos mais modestos a imperador delirante (Trump é poderoso planetariamente), como Bolsonaro e Milei, vivenciam, porém, uma espécie de êxtase.
Na órbita de Trump, a soberania dos outros é item negociável. O Brasil é muito castigado na guerra tarifária porque Trump, pelo menos por enquanto, quer Jair Bolsonaro impune pela escandalosa tentativa de golpe: “Parem imediatamente!”.
Trump quer a rendição do país. É verdade que com louco não se briga, mas não há motivo concreto para imputar a Lula parcela de culpa, ainda que mínima, pela crise diplomática.
Trump quer punição exemplar de manifestante que queimar a bandeira dos Estados Unidos, mas perdoou, cinicamente, os invasores do Capitólio, símbolo maior da democracia norte-americana: “Não fizeram nada de errado”.
A retaliação tarifária não tem lógica econômica. A “rua 25 de Março” está nos boletins da USTR (órgão incumbido de “investigar” as práticas comerciais brasileiras ilícitas) como mercado físico de produtos falsificados e de concorrência desleal, é verdade, mas o Barrio Once e o La Salada, ambos em Buenos Aires, também fazem parte do admirável mundo da contrafação e dos boletins do USTR: o Brasil tem a tarifa mais alta, a Argentina tem a mais amena.
Trump se preocupa com pirataria no Brasil, com o menosprezo à propriedade intelectual, mas não se incomoda com a apropriação não autorizada de conteúdo jornalístico por empresa aliada de inteligência artificial.
Trump se incomoda com corrupção no Brasil, mas um de seus primeiros atos foi suspender a vigência da lei que pune empresário que suborna autoridade estrangeira.
Trump se incomoda com “desmatamento ilegal” no Brasil, mas retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris, firmado para limitar o aquecimento global.
Trump se incomoda com falta de democracia por aqui, mas lá aposta no caos, conspira contra a Constituição, bajula tiranos, advoga interesses suspeitos ou escusos, sufoca o jornalismo, persegue opositores, maltrata imigrantes, desarticula agências independentes.
O governo criminoso de Jair Bolsonaro que Trump deseja reabilitar conspirou contra a democracia, promoveu o desmanche acelerado dos órgãos de vigilância ambiental, minou a autonomia de instituições de combate à corrupção.
No território aflitivo do nonsense, Donald Trump é insuperável. O Brasil faz bem em resistir.
