Neutralizando Bolsonaro

Da FOLHA
Por LUÍS FRANCISCO CARVALHO FILHO
Ex-presidente deve ser contido pelo peso da lei
O plano Punhal Verde e Amarelo, da epopeia golpista de Jair Bolsonaro, previa, antes da posse presidencial, a “neutralização” de Lula, Alckmin, da chapa vencedora, de Alexandre de Moraes, do TSE. Expressões como “colapso orgânico”, “envenenamento”, “química/remédio” faziam parte de narrativa ameaçadora e cínica.
A trama golpista se renova, agora com o apoio formal do presidente dos Estados Unidos. A família Bolsonaro, acampada em Washington, está no epicentro das tarifas impostas por Trump. Para proteção de delinquentes, vale tudo, inclusive o colapso da indústria exportadora.
Bolsonaro quer impunidade. Donald Trump quer governos submissos, sem alinhamento diplomático ou comercial com países que não orbitem o império da sua vontade. O Brasil é apenas um balão de ensaio.
A mortandade e a fome na Faixa de Gaza e o encarceramento arbitrário de imigrantes são sinais evidentes de que direitos humanos não fazem parte da agenda trumpista.
Bolsonaro acusa o juiz de “parcialidade”, de estar impedido de julgar porque é “vítima” de crimes investigados. Aceitar a estratégia significaria legitimar a coação no curso do processo. Réus de golpe de Estado não ditam o ritmo e as regras do jogo. Membros do PCC também adorariam escolher juízes “imparciais” ou “garantistas”, dóceis ou medrosos.
“Neutralizar” Bolsonaro et caterva é imperativo constitucional, é legítima defesa. Não é arbítrio. Para garantia da ordem pública, o seu encarceramento sempre foi necessário e urgente.
Fora do ambiente tóxico de Trump e Bolsonaro, a aplicação da Lei Magnitsky a Alexandre de Moraes é um despropósito jurídico. Para gerar desconfiança nas instituições brasileiras, o magistrado honrado que resiste à trama golpista é inserido em lista punitiva composta de tiranos e corruptos.
Políticos aparentemente “imparciais” em relação aos ataques desferidos por Bolsonaro contra as instituições democráticas, desde o processo eleitoral, participam, ainda que silenciosamente, do movimento infame.
Venceram as eleições de 2022, como o governador de São Paulo, mas não têm a hombridade de reconhecer, sem sofismas, a legitimidade da eleição de Lula e o descalabro da reação bolsonarista.
Às favas com a soberania, são agentes políticos supostamente “contrários” ao tarifaço, mas sentem indisfarçável simpatia pelos desatinos autocráticos de Trump. A América deve ser grande, ainda que o Brasil seja minúsculo.
O governador de Minas Gerais, por exemplo, apoia a narrativa golpista de Bolsonaro com argumento falacioso. Alexandre de Moraes “está pagando o preço daquilo que ele plantou”, resume o pensamento maligno e insalubre de Romeu Zema. Quem está pagando o preço daquilo que plantou não é Bolsonaro, por conspirar contra a democracia, é o juiz que resiste às suas investidas contra a ordem constitucional.
Alexandre de Moraes não é e nunca foi homem público de esquerda ou de vocação progressista. É ligado a Michel Temer, não ao PT.
A “neutralização” definitiva de Bolsonaro, pelo peso da lei, depende, sobretudo, da opção ideológica de forças políticas conservadoras. Há espaço para o desenvolvimento de uma ala direitista distante da barbárie e da imundície ética e estética de Bolsonaro e sua família.
