Alligator lives matter

Da FOLHA
Por LUÍS FRANCISCO CARVALHO FILHO
Sob Trump, valores humanistas viram pó
Muito além de um projeto publicitário (político e comercial), a inauguração do centro de detenção “Alcatraz dos jacarés“, na Flórida, nos remete para tempos sombrios.
Um dos alvos de Trump são os latinos, mais de 62 milhões, quase 20% dos habitantes dos EUA.
A nova prisão, cercada por pântanos selvagens habitados por incontáveis, famintos e enormes jacarés, é, por isso, apresentada como inexpugnável. A não ser que o fugitivo assuma o risco de virar comida para os répteis.
No princípio do século 20, os jacarés da Flórida apareciam como predadores de negros, inclusive crianças, “iscas” para pesca e captura: a iconografia racista e higienista da época é constrangedora. Não é coincidência. Sorridentes, agora os animais aparecem usando bonés da ICE, a terrível e implacável polícia dos imigrantes, isenta de controle, a maior destinatária de recursos públicos na área de segurança.
Trump inspira ódio nas redes sociais e em lojinhas para a venda de camisetas temáticas e itens decorativos. “Alligator lives matter” é a saudação da sua amiga e conselheira informal, Laura Loomer, ao projeto presidencial de criar o novo campo de concentração de imigrantes: “a boa nova é que os jacarés têm 65 milhões de refeições”.
Dizem que Trump tem a habilidade política de usar temas controvertidos para distrair as atenções em momentos econômicos desfavoráveis. Dizem também que exagera na retórica para se conter na prática, em caso de necessidade, como tem acontecido no errático movimento de multiplicação das tarifas.
Mas não é distração. É destruição real, deliberada.
Sob o olhar complacente e intimidado das elites norte-americanas, valores humanistas consolidados em décadas de ativismo e jurisprudência viram pó em apenas seis meses. Submissa, a Suprema Corte remove obstáculos jurídicos e acaricia o ego do autocrata. A oposição hesita, falha. O mercado observa com o olhar sorrateiro dos jacarés a desvalorização global da moeda, o triunfo do negacionismo científico e, para contenção de desperdícios, o derretimento de agências governamentais antes empenhadas em socorrer necessitados.
Arbítrio não é anedota, tem consequências individuais. Trump recria uma atmosfera macarthista de perseguição. A embaixada dos Estados Unidos em Brasília anuncia que fará “abrangente e minuciosa” verificação do comportamento na internet de estudantes interessados em vistos. Atleta brasileiro está impedido de competir nos Estados Unidos pois viajou para Cuba.
Trump atenta contra a liberdade de expressão, prega limpeza étnica, difunde medo. Desde que assumiu, sonha com a possibilidade de cassar naturalizações, inclusive de adversários. Zohran Mandani vence as primárias do Partido Democrata para disputar a Prefeitura de Nova York e o presidente dos EUA tranquiliza Wall Street: não deixará um lunático comunista destruir a cidade.
A América trumpista é policialesca, arbitrária, ignorante, racista. Se a economia ajudar, tem tudo para prosperar.
Ridículos tiranos, como Trump, Bolsonaro, Mussolini, Hitler e tantos outros, emergem do caldo político democrático e contam com a simpatia e a credulidade de parcelas eventualmente majoritárias das populações. Difícil explicar para as crianças.
