Só uma de nós não foi abusada

Da FOLHA
Por GIOVANA MADALOSO
Sugeri que quem sofreu violência se levantasse
Era mais um de nossos tantos jantares. Em torno da mesa, a turma de amigas formada ao longo dos anos. Algumas da juventude, outras da vida adulta, todas íntimas.
O papo estava animado como sempre. Uma falando com a outra, se intrometendo na conversa da outra, risadas escapando aqui e ali. De repente, uma voz lá no meio se sobressaiu: claro que eu já fui abusada, quem nunca?
A mesa se silenciou. Virei-me para quem disse a frase. Ela estava com a taça de vinho na mão, de pé entre as outras. Sabíamos o que tinha sofrido, mas nunca tínhamos ouvido tocar no assunto em bom som, e ainda completando a sentença com aquela pergunta perturbadora.
Ela baixou o rosto, parecendo subitamente constrangida com o que saiu de sua boca. Para mostrar que não havia nada de errado com a sua colocação e para evidenciar que ela não estava sozinha, sugeri: que tal todo mundo que já sofreu algum tipo de abuso ou violência de gênero se levantar também?
Fui a primeira a esticar os joelhos: eu, violência doméstica. Ela, que já estava de pé, só se empertigou: o meu, vocês já sabem. De fato, já sabíamos: foi dopada em uma festa por um conhecido, que depois lhe deu carona, levando-a até um terreno baldio e fazendo o que, pelos anos seguintes, lutaria sem sucesso para esquecer.
Senti a terceira se levantar ao meu lado, tomar coragem para falar, já que nem todas sabiam seu segredo: fui abusada pelo meu tio até os oito anos. Ele dizia que, se eu contasse para alguém, nunca mais poderia brincar com meus primos. E depois de uma breve pausa: eu amava meus primos. Olhei para ela e lembrei de suas feridas: duas décadas de depressão profunda, 40 quilos, ideação suicida.
Eu ia virar e abraçá-la mas senti que mais alguém se levantava. Fiquei surpresa, era uma das minhas melhores amigas, como eu não sabia de nada? Quando eu tinha 14 anos, meu padrasto tentou me agarrar a força, disse. E depois de uma pausa: prometi que não ia contar para ninguém até a mãe morrer.
Fiz um afago na sua cabeça. Depois fiz menção de me sentar, mas percebi que outra amiga começava a se erguer, lentamente, como se não tivesse certeza de que poderia subir naquele púlpito.
Antes de falar, virou a taça de vinho. Depois balbuciou o nome do marido. Às vezes ele me força quando não quero. Não sabia que isso também era estupro até começar a fazer a terapia, ela disse, e senti um bolo no estômago ao imaginar o cara que cozinhou tantos almoços de domingo para nós tocando uma carne fria.
Ainda bem que a última amiga que restava sentada não se mexeu. Seguiu só nos observando, os cantos da boca pendendo para baixo. Devia estar sentindo pena, talvez alívio por não engrossar aquele coro.
Cheguei a pensar que nós, que estávamos ali eretas, éramos azaradas, mas então me lembrei dos números de violência contra as mulheres no Brasil. Naquela mesma noite, outras mesas estavam ocupadas por milhões de mulheres como nós, que só não choravam ou quebravam pratos porque, em geral, entre as vítimas reina o silêncio, uma mudez que favorece os abusadores.
Finalmente desabei na minha cadeira. A amiga que desfaleceu no terreno baldio abriu outro vinho. Enchemos as nossas taças. Éramos sobreviventes, mas nem por isso fizemos um brinde.
