2025, o ano da grande fome

Da FOLHA
Por NATALIA FINGERMANN
Escassez de alimentos vai além da Faixa de Gaza e provoca devastação na África Subsaariana; desmonte de sistemas de ajuda internacional é alarmante
Enquanto as grandes lideranças internacionais relutam em compartilhar o tradicional banquete oferecido em suas conferências anuais, milhões de pessoas no mundo são abandonadas à própria sorte, sem um único pedaço de pão. A fome na Faixa de Gaza aparece de maneira gritante nos meios de comunicação, porém ainda é insuficiente para gerar comoção frente à dinâmica de poder que rege a atual ordem internacional.
É preciso destacar, ainda, que a fome não se restringe ao território de Gaza neste ano de 2025. A fome é o prato mais presente à mesa ao redor do planeta. Milhares de famílias que viviam graças ao sistema de ajuda internacional, estabelecido após a Segunda Guerra Mundial, encontram-se agora em situação de calamidade, agravada ainda mais pelas mudanças climáticas, que dificultam o plantio de subsistência para muitos povos do Sul Global.
O desmonte das agências especializadas das Nações Unidas, promovido pelo governo de Donald Trump nos EUA, somado ao corte de 90% dos contratos da U.S. Agency for International Development (Usaid) e à redução de US$ 60 bilhões da assistência global estadunidense, tem causado uma devastação na África Subsaariana. A região também foi impactada pela redução de recursos aplicada por França e Reino Unido, nações que mantinham uma sólida estrutura de ajuda internacional na região, principalmente em suas ex-colônias.
A França, por exemplo, argumenta que a redução de 40% no orçamento da Agence Française de Développement (AFD), atingindo a marca de 2 bilhões de euros, deve-se ao cumprimento da política econômica de austeridade orçamentária. Já o governo trabalhista do Reino Unido declara que a repentina necessidade de aumentar os gastos militares impõe cortes gradativos na ajuda internacional, que deve atingir o patamar de 0,3% do Produto Nacional Bruto (PNB) em 2027.
Essa escassez de recursos financeiros tem impactado diretamente os programas de ajuda humanitária. No dia 5 de maio, o Programa Mundial de Alimentos (PMA), integrante da ONU, anunciou em sua conta no Instagram o fim da ajuda alimentar para 1 milhão de refugiados alocados em Uganda. Atualmente, Uganda é o país com o maior número de refugiados do mundo, com 1,8 milhão de solicitantes de asilo, oriundos principalmente da República Democrática do Congo, do Sudão do Sul e do Sudão.
O aumento da fome nos campos de refugiados pode agravar os conflitos nesses países, ao promover o retorno de grupos politicamente ameaçados.
Além disso, de acordo com o PMA, a queda orçamentária na ajuda internacional deve atingir aproximadamente 52 milhões de indivíduos na África Central e Ocidental, colocando-os em situação de grave restrição alimentar durante o período de seca, de junho a agosto. No Mali, a situação é tão dramática que a instituição estima uma grande fome, prevendo a morte de milhares de pessoas sem acesso à água e a alimentos de subsistência —cenário que pode se repetir em países cada vez mais impactados pelas secas recorrentes ocasionadas pelas mudanças climáticas, tais como Chade, Camarões, Mauritânia e Níger, entre outros.
No entanto, a solução para a fome não depende do aumento da produção, pois se sabe que a produção mundial de alimentos é mais do que suficiente. O fim da fome depende de uma ordem internacional na qual as potências prezem pelos valores morais humanitários e em que a política se torne aquilo que o papa Francisco desejou: “Uma sublime vocação, uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem comum”.
